CLARICIANA

Capa – Rocco Editora

Por Juliana da Paz

Um dia ME encontrei com CLARISSE. Não foi na biblioteca, nem na frente da praia da Pajuçara, em Maceió, primeiro porto de Clarice no Brasil e onde brotei de alguma raíz para nascer Caju. Não foi também no dia em que a professora de literatura me recomendou ver o vídeo de Macabéa adorando porcas e parafusos.

Queria que nosso encontro profundo houvesse se dado durante uma grande paixão que descobrira ser igual à de GH, ou ainda, quando vi suas fotos pela primeira vez! Um mistério de mulher, uma compota de doce de figo, com batom escuro na imagem em preto e branco, mais um cigarro pousado entre os dedos compridos e magros que tinham fim em unhas bem feitas!

E que suspiros de elegância ela soltava por aí! Amei seus cabelos, mas a primeira questão que me veio foi “por que ela fuma?”… Minha mãe também fumava, na época, e havia em mim sempre um medo plantado que toda pessoa fumante morresse de algum câncer qualquer.

Estive, um dia, frente a um comentário sobre texto meu que dizia “Sua escrita me lembrou o prosaico de Clarisse Lispector” e ainda, outra vez, me disseram “Clariciana é sua literatura”. Tenho medo e vontade de correr cada vez que me comparam a alguém.     

Não sei explicar muito bem, mas meu coração escorregou todinho pelas pernas quando li essas duas frases. E nesses dias, mesmo assim, ou exatamente por causa disso, não tive coragem de me encontrar com Clarice, de me parecer com ela, jamais terei. Nem na escrita, nem no resto.

Foi quando, por saudade de ler coisa outra que não fosse nem profunda, nem conhecida, nem nada, me pus diante de uma obra intitulada “Clarice Lispector, aprendendo a viver”. A não citação daquela escrevedura de Clarice em qualquer texto que já tenha lido sobre ela me despertou a vontade/coragem do encontro.

E fui. Textos frugais encheram meus olhos de uma mulher que podiam habitar perfeitamente a fotografia preto e branco da minha memória. A leveza para abrir a casa e a alma que eu vi ali. A certeza de se ser e estar bem com isso! Que belo! Que confuso tudo se tornou a respeito do que queria dizer Clarice para mim. Que delícia! E eu me sentei à mesa com ela para que conversássemos sobre a família, os carnavais, os causos domésticos, a escrita em seu labor e peleja que é.

Texto de Clarice Lispector

Passei as mãos sobre sua máquina de escrever e pensei “Como deve ser escrever sem poder voltar atrás num erro de digitação, numa frase mal colocada, numa pontuação que deveria ser outra?”. Cheirei seus cabelos um pouco e não eram defumados como pensei. E ainda levei comigo o sonho de ser o destino que nos fez ter compreendido que tomar posse da escrita era algo possível aos treze anos. Que ter filhos, escrita, amores e acidentes para dar conta, é coisa de qualquer mulher que realmente deseje tudo isso.

Lembrei-me também da fala que me acusou foucaultiana em um congresso de educação, desses rótulos que nos botam por gostar de alguém… E eu de imediato respondi, Foucaultiana, não. Juliana. E agora, hoje, no dia em que ME encontrei com CLARICE senti que Clariciana também não me sinto, mas não pesa, nem me desvincula de mim. Talvez o que nos ligue seja meu jeito de construir Juliances no ar, no papel, na vida. Parabéns, obrigada por nos permitir o mergulho, amada Clarice!

OUÇA O TEXTO, NA ÍNTEGRA, NA VOZ DE JULIANA DA PAZ

8 comentários em “CLARICIANA

  1. Sendo Clariciana ou apenas se permitindo a encontros e devaneios, sentada junto a ela, trocando miúdos, palavras ou folheando as profundezas de páginas e páginas de um livro, mesmo sem pronunciá-las. Entre Claricisses, Julianices, Anices, vemos- lemos- escrevemos o mundo à nossa própria maneira: cada uma sendo única e transcendente. Cada uma sendo o que É. Linda e verdadeira homenagem.

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  2. Emocionada, Ju ❤️ tbm sou grata a Clarice e muito, quando com 16 anos li Perto do Coração selvagem e de alguma forma, eu que já lia, naquele momento foi meu mais profundo encontro com a literatura, com Clarice, com Joana e é um prazer ler e encontrar Juliana, Celane, Arlete, Raíssa, Carol, Mara, Thata, Elisa, Ana karina na literatura e na vida ❤️

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  3. Juliana, eu tive livros da Clarice perto de mim na infância e adolescência. Um deles era desses textos mais prosaicos, crônicas e pequenos dizeres, chamava “Para não esquecer”, era publicado pela Ática e tinha o desenho de um pinto (filhote de galinha) na capa. Folheei aos 9 anos, curiosa pela imagem do pequeno animal (remetia a umas das crônicas, sobre um pintinho adotado na feira que vai parar num apartamento e cresce emparedado e achando que é humano), e o conflito entre a expectativa e os textos densos e estranhos me fez voltar a esse livro várias vezes nos anos seguintes. Acho que essa busca das epifanias eu aprendi com ela, sim. E acho que também pensei, ao ler seus textos, que algo dela também estava lá. Talvez seja nossa condição comum, de mulheres cavando mais além da superfície. Mas concordo com as julianices, e achei ótima a resposta a quem te jogou a pecha de foucaultiana, rs… quero ser que nem você quando eu crescer, ainda falta muito.
    Quem sabe a cadência dos cocos, quem sabe o contato com a natureza, quem sabe ser filha de Nilza, irmã de Paula e Alisson, e morar no Capão, estejam fazendo brotar uma Juliana com julianices bem peculiares? Intuo que sim…

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