Chuveiro queimado

Remedios Varo. Mulher saindo do psicanalista, 1960.

Raíssa Padial Corso-

O chuveiro tinha queimado.

Manuella havia no mesmo dia percorrido o corredor com olhares cínicos, pedantes e piedosos. Ainda bem que ela não tinha muita coisa pra levar, uma planta quase seca como ela, num corredor seco, numa cidade seca, relações secas. Sim, a monotonia regava…. Ela árida, sussurrava para si autoajudas e grilhões, se preocupava com a infiltração, e com a pia entupida. Manuella pingava percorrendo o corredor, na caixa também trazia um cartão de amigo secreto, os erros de linguagem a irritavam, porém, era sinal, quimera, pontinha de afeto. Enquanto cruzava o corredor, ouvia pela última vez os diversos telefones que tocavam ao mesmo tempo, o barulho dos teclados apressados, máquinas de criar solidões, observava como em câmera lenta, um porta-retratos, férias de troféu, outras plantas moribundas como a dela. Barulhos de saltos a esmagavam, como subliminares avisos de coerção, desadequação. Um sorriso de lado a cada passo. Fazia 7 anos que cruzara a porta de entrada: a mente e seus compartimentos, não tolera as grafias do corpo, o braile dor, o encrustar luto, o casulo sorridente que Manuella havia se tornado. Seus passos rachavam o chão, e como abismos o solo em suas costas se desprendia, dissipava, desatrofiava. Pelo menos pagaria as dívidas, quitaria o terreno da mãe em Birigui, talvez voltasse ao ramo de sapatos. Modelos aderentes, raízes fincadas onde nenhum machado angustiado, desataria suas sinapses. Um sapato antiaderente a decepções.

Finalmente cruza (qual fecunda donzela) o corredor, pisa bem pisado o capacho da saída.

Todo o murmúrio silencia, e sua respiração, antes tarde… oxigena. Cruzar a cidade foi mais rápido que cruzar o corredor do RH. Que recurso é esse?! Essa gestão de alma alheia. Ai se visse…

Almejava o banho mais que tudo, desobstruir, tirar pedras astrais, cargas mentais. Era sexta. Água fria para curar rancor, gelar órgãos, fazer o corpo se recompor, avançar temperatura, tempero e cura.

A planta agora mora no banheiro, bombeia gotículas de banho para se nutrir. Seu altar é um chuveiro. As cidades são famintas por cachoeiras, papam até as bordas. A população é como um poro da cidade, suando eternamente os vícios, que apartam o ser de si.

Em Birigui tudo seria diferente, Ser seria.

Manu, ela guia. Ela Manu, esguia…. Aprenderia a parir-se.

Ouça Chuveiro queimado na voz da autora:

6 comentários em “Chuveiro queimado

  1. agua fria é cura e manuella de birigui é inspiracao pra regenerar a terra seca. agradeco por esse texto. me identifico com essa profecia. gostando muito de ler sua face prosadora. desejo sol e agua fresca pros teus escritos. me marque sempre que escrever .. abraco

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  2. Raissa,

    Cada palavra do seu texto me impactou como as águas que caem sobre o corpo num daqueles banhos quentes ou frios de chuveiro que nos salvam!

    Quem nunca desejou com as vísceras chegar em casa e se entregar nua ao chuveiro, desejando ser inundada, tendo o solo das costas encharcado por aquelas águas, quase um ritual, de remissão e renascimento?

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