A noite espia

The cafe terrace (1988), Van Gogh

“Vem revestida às vezes de aspereza
Vem com brilhos de dor e madrepérola
E sibilante e lisa
Se faz paixão, serpente, e nos habita.”

Da noite III, de Hilda Hilst

por Celane Tomaz

ouça meus olhos.
bebo desta meia luz disforme encobrindo teu rosto, dando forma tua face
na minha.

pausas burburinhos acomodadas nas luas de sempre. dividimos o cálice da transparência que nos esconde.

há tanto vermelho envolvido, vivo por todos os lados. acaricio todos os teus emaranhados – da tua barba salgada à tua alma desalinhada. cofiando fio a fio e os milésimos de segundos confinados na tua existência na minha.

falamos pelos suspiros e pela mudez que nos ouve, juntos e solitários no meio de risadas desconhecidas, do tilintar das talheres, dos encontros marcados – nos reconhecendo iguais e únicos, dentro de tantos (des)encontros.

o desejo convencido é guardado na ponta dos dedos inquietos. amarrados os pensamentos. nós cortados. querer amordaçado, mordido junto aos lábios, limpado na sujeira do canto da boca, subitamente esquecido no olhar que se desvia – gole a gole, não a não.

mato o tempo, teu tempo, meu tempo. entrelaçada a carne, aquecida e esquecida entre os vãos das distâncias mínimas dos nós(sos) abismos.

nas calçadas, passos lentos e incontáveis pisam teus meus medos, tantos medos. pedregulhos nos espelham opacos os pedaços que somos. luzes e mais luzes espiam acesas, lembradas nos anseios que não se apagam. lado a lado e entre nós – a solidão.

o reconheço.
e desconheço nos intervalos que existem entre uma luz e outra pelos postes da cidade que nos acolhe, na medida em que nos encobre o breu da noite.

é janeiro e está frio lá fora. é meia-noite, apesar de inteira. a lua é minguante como se insinua o amor. as estrelas – o retrato dos fragmentos- migalhas que se doam. toleráveis são as noites sem (a)manhãs. negados os beijos que nos revelam. dolorosas memórias arderão como sol ao nascer do dia.

a noite é enorme e deseja dormir. a noite pendurada nos segura. ela é testemunha, nos espia e guarda o (e)terno segredo.

tudo agora dorme.
e os sentidos – pele, ouvidos, cheiro, olhos e voz – descansam apagados na penumbra deste poema.

13 comentários em “A noite espia

    1. a noite é testemunha, os (des)caminhos a fuga de outros e um querer estar ali, mesmo sem estar – de corpo e meia alma. gratidão pela leitura, Ana 👊🏽

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    1. a literatura e a palavra nos adentram e transformam qualquer situação comum. dentro delas o viver é mais bonito, inclusive o amor.
      grata pela leitura!

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  1. Cel nos coloca como cúmplices, imprime no leitor a marca desse mistério noturno enredando pelo encontro com a rua, a lua, os amantes, os passantes e ninguém sai incólume, somos afetados pela beleza e precisão dos dedos indeléveis dessa poeta. Cel, tu és divina!

    Curtido por 1 pessoa

    1. do poder que a leitura exerce em nós quando é inteira, a significação e o valor que um leitor dá a um texto, leio aqui.
      só tenho gratidão e impulso pra seguir nessa devoção à palavra.

      Arlete ⚘
      Seguimos

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  2. É lindo! O verbo rompe espaço e tempo implodindo a lógica da presença. A lembrança (e a fuga sobre ela) constroem para as personagens uma relação que não cabe finitude. É como pintar a noite de azul, ou salvar um afogado com um beijo mais terno e mais necessário que um sopro de vida. Você é incrível!

    Curtido por 1 pessoa

    1. Um comentário-poesia!
      “O verbo rompe espaço e tempo…”
      “… uma relação que não cabe finitude. ”
      “… um beijo mais necessário que um sopro de vida. ”
      todos versos de um poema escrito no intervalo e no vão entre leitor e leitura, no silêncio das entrelinhas. Compreendeu as presenças-ausências de um amor que se escondeu na própria escuridão da noite.

      Muito grata pela sua leitura cheia de significado!

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  3. É lindo! O verbo rompe com tempo e espaço. Implode a lógica da presença pela memória e pela fuga dela. Cria para as personagens uma relação que extrapola a finitude. É como salvar um afogado com um beijo terno oferecendo a própria vida. Você é incrível!

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