Domesticar

Remedios Varo, Papilla Estelar, 1958.

Carolina Tomoi-

Era tudo que mais detestava fazer, sabia que não havia nascido para aquilo. Mas sabia que era imprescindível sua função e sentia a responsabilidade de destrui-la.

Talvez por ouvir a vida toda que aquilo era seu. Um tipo de herança maldita, talvez um carma arrastado por gerações milenares, uma sina, praga, lupen funcional-temporal do que nem bruxas nem rainhas conseguiram se livrar.

Em seu sangue terra e floresta, arte e letras. Entretanto, aparar suas unhas, amarrar seus cabelos, esfolar sua pele, enojar seus sentidos, encurvar seus ombros, prender seu coração, domesticar sua mente.

Por isso, precisava ter tudo sobre controle: mentalmente.

E na sua meticulosa forma de organizar podia fazer previsões e planejamentos precisos. Investia em equipamentos domésticos não só para aliviar os esforços repetitivos das tarefas mais necessárias e desvalorizadas, como também para economizar em insumos e manutenção, assim passando a exploração relativa.

Graças ao capital entendia o quão revolucionária seria a destruição de sua função! O quão importante seria sua não presença. Imaginava o mundo sem si, quando cada um deles tivesse realmente compreendido sua função e ela então pudesse ser só ela mesma, junto a todos. Apenas ego sum.

Ouça Domesticar na voz da autora:

3 comentários em “Domesticar

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