Grafias de mulher

Solange Amorim-

“A noite não adormece nos olhos das mulheres” 

Conceição Evaristo

Ela caminhava ofegante e seu corpo parecia ranger. Carregava um cansaço imenso. Cabelos  curtos e grisalhos, olhos pequenos e nevoados,  avermelhados pela acidez de São Paulo. A retina esquerda aparentava conter uma pequena cicatriz que  diferenciava um olho do outro.  A angústia saltava à vista sob a máscara lacônica. A mulher parecia pedir socorro.

Quanto a mim, eu havia acabado de pintar os cabelos. Ficaram 5 meses sem tintura. Até que decidi pintá-los novamente. Não suportei  a imagem de mais de 70% dos fios brancos no espelho. Sentia-me envelhecida brutalmente pela pandemia e suas agruras. E não foram poucas, reverberando para sempre dentro de mim. Despigmentando pêlos, comprimindo tecidos, desgastando ossos e cartilagens, causando um imenso vazio interior a procura do sentido de se estar aqui, dentro de si e de tudo que nos contém e não nos reconhecemos, ou não nos achamos e nos perdemos continuamente, numa rota sem fim.

Nos encontramos nos corredores do prédio do complexo hospitalar da Santa Casa de Misericórdia em plena quarentena. Cada qual com sua máscara. E com sua história de vida também; com sua  identidade quebrada e partida inúmeras vezes; com sua mama e sua grafia particular.

Perguntou-me onde ficava o setor de mamografia. Respondi que também estava indo para lá, que não conhecia o hospital e estava tão perdida quanto ela. Falei-lhe “vamos juntas então, o rapaz disse que é na quarta porta à direita, num balcão azul”.

Ao caminhar pelos corredores da Santa Casa não pude deixar de notar a arquitetura gótica do lugar e todo o seu esplendor, apesar da atmosfera hospitalar pesada, ainda mais plúmbea em decorrência do novo coronavírus. 

Aquele espaço tinha estrutura de museu. E de fato soube depois que há um no local, repleto de objetos de grande valor artístico e histórico.

Senti-me literalmente num castelo medieval; num tempo em que as mulheres, portadoras de mamas que alimentam o mundo, eram queimadas nas fogueiras e tinham rígidos papéis sociais: o de santa ou puta, o de esposa ou bruxa. Mas que quase sempre se igualavam  em escravidão, em maior ou menor grau. Essa condição feminina entranhada na história, fortemente marcada por opressões que se perpetuam e só se transformam com muita luta de mulheres de peito,   lançando-se no front em defesa do seu direito de ser e existir.

Ao final, o que teria sido aquela construção antes de se tornar um complexo hospitalar? Imaginei um convento, pois há marcas de cristianismo evidentes, a começar pelo nome “Santa Casa” e a presença  nos múltiplos espaços de imagens de santas retorcidas.

Ao examinar a história, descubro que as Santas Casas de Misericórdia são irmandades filantrópicas criadas com o objetivo de atender os mais necessitados. E que a de São Paulo foi inaugurada em 1884.

Ao chegar na quarta porta à direita, perguntamos se era ali o local onde se fazia mamografia. O rapaz no portão indicou o balcão azul.

Fizemos a ficha, fomos para o primeiro andar, depositamos  a papelada numa caixinha na porta da sala e fomos aguardar a chamada no corredor ao lado.

Ela me contou que estava perdida antes de me encontrar,  que veio de São Matheus e que esperou 5 meses para o agendamento do exame. Geralmente, disse-me, eles encaminham para um hospital que fica a 30 minutos de sua casa. Mas, dessa vez, enviaram-na para cá e teve medo de atravessar a cidade sozinha para chegar até o hospital. Que não sabia o que faria para voltar, pois não sabia como sair de lá.

Perguntei-lhe se veio de metrô e respondeu que sim.  Então, expliquei-lhe que era só retornar no corredor que viemos, sentido estacionamento, virar à direita na Rua Dona Veridiana até a Praça Santa Cecília, que a estação do metrô era bem em frente.

Enquanto aguardávamos a chamada, ela contou-me que estava preocupada com a mãe de 92 anos de idade, que a havia deixado com o filho.

“Amassou a banana para ela?”, perguntava ao filho ao telefone.

Decidira parar tudo em sua vida para cuidar da mãe. Fazia 5 anos que trouxera ela para morar em sua casa. Ainda andava naquele tempo e usava fraldas somente à noite. Agora, só ficava deitada. E tinha dia que não reconhecia ninguém; que queria ir embora de volta para a casa dela, que arrancava as roupas, a fralda e pedia para tirar o sapo no canto do quarto olhando para ela.

Eram dias difíceis, que no início chorava muito vendo a mãe naquele estado, mas que aprendeu a driblar a situação, a não contrariá-la e a entender que o Alzheimer é um caminho sem volta.

A mãe tinha vergonha quando o neto dava-lhe banho ou trocava as fraldas. Queria a filha. Mesmo o neto estudando para ser técnico de enfermagem, ela preferia a filha. Perguntou-lhe ao telefone quando ela voltaria. Respondeu à mãe com ternura: “Volto já, mãe, é rapidinho. Daqui a pouco chego em casa”.

Contou-me que a mãe vivia com o irmão dela antes da doença. E que quando passou a apresentar sinais e a requerer cuidados, tinha que se deslocar até a casa do irmão para ajudar a mãe. Foi aí que decidiu trazê-la para sua casa, para ficar mais fácil.

Com o passar do tempo, o quadro foi se agravando, o irmão se mudou para  um sítio em Sorocaba e ela ficou sozinha cuidando da mãe.

Diz que dois sobrinhos moram perto dela e sequer ligam para saber da avó. Somente o que mora no interior, quando vem ver o pai, passa lá para visitá-la.

Com os olhos ainda mais nublados afirma que a mãe dela só tem um neto. Que quando tinha saúde, a mãe cuidara das crianças enquanto seu irmão e cunhada trabalhavam.

Relata que seu filho a trata com muito carinho, que confia deixá-la com ele, pois já sabe como ela gosta que a mãe seja cuidada. 

No final do ano, contou que seu irmão buscou-as de carro para passar uns dias no sítio. A mãe ficou feliz. Sentavam-na a beira da piscina e ela batia os pés na água. A cunhada não queria ficar com a sogra. A passeio tudo bem, desde que ela estivesse junto, acompanhando a mãe.

Disse-me que, se tivesse uma semana de folga, não faria outra coisa além de dormir a semana inteira. Não iria fazer outra coisa senão dormir.

Neste momento, seus olhos miúdos se comprimiram com tanto cansaço acumulado e fomos finalmente chamadas para o exame.

Deixei-a passar na minha frente. Assim, a moça preencheu primeiro o questionário dela com as informações necessárias para  a realização do exame. Era a sua primeira mamografia e, quando ela falou a sua data de nascimento, vi que aquela senhora era mais jovem que eu. Ela me tratava como “moça” e eu a tratava como “senhora”.

Naquele momento, fiquei ainda mais condoída com sua situação.

A técnica tinha disposição de atendê-la primeiro, pois achava que ela era mais velha. Todavia, quando perguntou-me a minha data de nascimento, constatou que eu não só estava na frente, mas que era bem mais velha que a outra paciente.

Fiz o exame enquanto a senhora aguardava a sua vez, preocupada como faria para sair do prédio e chegar até o metrô.

Na sala, desconsertada perante a moça que realizaria o exame, após retirar blusa e máscara, desci as alças do sutiã e me dirigi ao mamógrafo.

Quando os meus seios começaram a crescer eram extremamente doloridos. O meu pai, não percebendo que eu já estava ficando mocinha, puxou um dos mamilos numa brincadeira, acredito eu. A dor ficou grafada na minha memória.

Depois, lembro-me que no espelho do banheiro da escola ergui a blusa com deslumbramento para mirá-los. Eram bonitos os meus seios adolescentes, escondidos embaixo do uniforme escolar.

Recordo bem o dia que a minha tia presenteou-me com o primeiro sutiã.

Com o tempo, cresceram muito e eu tinha vergonha deles. Sonhava fazer plástica de redução de mamas. Esse sonho me perseguiu a adolescência toda e, quando tive o primeiro filho, após a amamentação, desejei como nunca reduzir os seios e também suspendê-los.

Foi um tempo de muita mamoplastia e implante de silicone.  Muito caro o procedimento e arriscado também.

Fui esquecendo essa obstinação. Sutiãs com aro davam conta do recado e mulheres peitudas estavam em alta.

Tive o segundo filho e não consegui amamentá-lo mais que quatro meses, por conta do estresse vivido na gestação, que foi de risco, somado ao desemprego do companheiro e o retorno ao trabalho. O meu bebê preferiu a mamadeira e logo o leite secou.

Já o primogênito foi privilegiado nesse sentido. Mamou quase dois anos. Lembro que ainda recuperava-me da cesariana e tive que retornar para a faculdade no período noturno.  Os meus seios vazavam  durante a aula de psicolinguística.  Precisava dos créditos para finalmente graduar-me. Foi um semestre difícil, mas eu consegui. O meu bebê me esperava chegar da faculdade para mamar.

Agora os meus seios eram assim. Flácidos. E repletos de histórias. De amores vividos e morridos. Não sei se a máquina fazia essa leitura.

Apesar do constrangimento, tinham neles muita beleza e orgulho pela mulher de fibra que eu havia me tornado.

Terminado o exame, perguntei a ela se queria que eu a esperasse, afinal também iria para o metrô.

Os seus olhos encheram-se com o sorriso encoberto pela máscara e respondeu-me que sim, que estava desesperada com a ideia de se perder mais uma vez naquele lugar. Disse a ela então que esperaria no corredor, no mesmo local onde conversávamos enquanto aguardávamos a chamada.

O exame dela também foi rápido.

Agora era retornar de onde viemos.

Já na Rua Dona Veridiana, falava-me do filho. Um menino bom, que cresceu sem pai, pois ele tinha 8 anos de idade quando ela se separou do pai dele. Estava agora com 20 anos. Era um menino caseiro e estudioso. Ficou preocupada quando o filho decidiu estudar para ser técnico de enfermagem. Porém, não quis interferir em sua decisão. Ficou apreensiva por ser uma profissão desvalorizada em que se trabalha muito, não se tem final de semana, enfim, um trabalho de dedicação ao outro.

Mas o filho parecia gostar. Mergulhou de cabeça no curso e até já havia estagiado na área. Por enquanto,  era balconista numa farmácia.  Pretende, assim que concluir o curso e obtiver o Coren, trabalhar na área da enfermagem.

Nas catracas do metrô nos dividimos: ela foi para Corinthians/ Itaquera e eu para Palmeiras/Barra Funda.

Disse-lhe que tinha sido um prazer conhecê-la, que desejava tudo de melhor para ela, sua mãezinha e seu filho.

Ela perguntou-me “O que eu faço agora?”.  Indiquei-lhe as escadas para o embarque sentido Corinthians/Itaquera e nos despedimos definitivamente.  

Cada qual para a sua história. Com sua mama, com sua grafia, para o seu caminho de mulher que sustenta o mundo.

Ouça Grafias de mulher na voz da autora:

18 comentários em “Grafias de mulher

  1. esse mergulho detalhado numa narrativa tecida pela escrevivência é antes de tudo um oceano de vida e emoções representando nossos corpos numa relação dialética entre a força e fragilidade, que no final resulta em mais coragem para sermos o que somos. Mulheres que movimentam sustentam o mundo . Muito obrigada, Solange.

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  2. Solange, agradecida pela sua grafia que guarda e desperta tantas vivências de mulheres que carregam, sustentam e dão luz a este mundo.Viva sua presença aqui e em todos os lugares ❤

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  3. Solange, pessoa que sabe transmitir o que pensa e sente uma mulher. A realidade sentida só quem tem dom sabe interpretar e ser voz das milhares que andam nesse mundo, muitas doloridas e sem forças para expressar tantas injustiças. Obrigada querida. Espero logo ler seu livro, tenho certeza que esse momento seja importante grafa, pois vc sabe trazer as palavras corretas de quem sofre, mas sente na alma os ferrolhos da injustiça de quem que sabe a verdade…Bjs

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    1. Solange, pessoa que sabe transmitir o que pensa e sente uma mulher. A realidade sentida só quem tem dom sabe interpretar e ser voz das milhares que andam nesse mundo, muitas doloridas e sem forças para expressar tantas injustiças. Obrigada querida. Espero logo ler seu livro, tenho certeza que esse momento seja importante grafar, pois vc sabe trazer as palavras corretas de quem sofre, mas sente na alma a injustiça de quem que acha sabe a verdade…Bjs

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  4. Olhos marejados com as grafias, iconografias, tamanha sensibilidade neste domingo nublado!
    Gratidão por refletir o cotidiano com tanto detalhe, nasci na Santa Casa, transportou- me também para minha história.

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  5. Ah, Solange Amorim… como amo ler os seus textos! Como emocionou-me essa grafia sensível, que dá voz a tantas de nós, emudecidas pelas rudezas que a vida nos impõe… Seu texto fala muito sobre ti, uma mulher forte, mas que sensível a dor do próximo, move todas as suas forças no sentido de ser a diferença neste mundo (por tantas vezes vil) em que vivemos… Aguardo ansiosa o dia em que terei em mãos um livro com outras dessas belas histórias com as quais nos presenteia.

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  6. Não poderia ser diferente! Sempre que leio seus textos a emoção invade meu ser, inunda meus olhos de lágrimas a ponto de não conseguir segurá-las. Escorrem pelo meu rosto sem fim. Suas palavras não são apenas palavras, são histórias de vida, de luta, de sofrimento, dor e esperança. Sinto sua presença mesmo a senhora estando longe. É sempre um prazer poder apreciar seus textos. Parabéns!!!

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  7. Solange Amorim,
    Como esse texto me representou como mulher, como filha, como mãe… É com os olhos marejados que me vejo em sua história. Gratidão, querida! Por favor, continue nos presenteando com a sensibilidade e afetividade de seu olhar, de suas reflexões. Bjos 😚

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  8. Adorei ler e ouvir viajei em suas palavras. Você sabe que adoro escutar seus ensinamentos. Você é a número um para mim ti admiro e respeito. Espero ler mais

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  9. Solange… Vc nos remete, com sua escrita, a esse mundo circunspecto do cotidiano de mulheres que com suas histórias nos fazem entender a complexidade da vida..
    Uma escrita poderosa …

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  10. Com a leitura, os olhos se enchem e transbordam dessas histórias que vivemos em nós, em outras, em nossas que carregam tanto de todas. Gratidão por esse texto, que me soa como denúncia e ao mesmo tempo homenagem.

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