Mãe-da-rua

Ivan Cruz

Arlete Mendes-

O range-range a afinar os punhos da rede compete com o  firimfim da Cruviana*.

O chiado das alparcatas no compasso ralentado de Dona Neném.

O rezo orquestrado nos galhos da arruda cosquenta de Dona Sinhá.

-Xiu, num ria, sua buliçosa, se aquiete!

O canto vocalizado entre voo e pouso de quem nunca deixou de me embalar.

-Ô,ô,ô, a, a, a, ô,ô,ô, a,a,a,a… Desce, gatinho, de cima do telhado, que é pro meu anjinho tirar um sono sossegado…ô,ô,ô, a, a, a, ô,ô,ô, a,a,a,a…

Flauteia a flor em festa ao pé do ouvido, sintonias, sinfonias que me compõem.

Já fui sereno, fui neblina, hoje só sublimo.

Cheiro de goma molhada, café coando os dias.

O tempo era medido na giro ponteiro das saias rodadas das meninas faceiras.

Ciranda infinita de astros e estrelas fazia subir rios, riachos, mares, marrés

Eu sou rica, rica, rica de marré, marré, marré… eu sou rica, rica, rica…

De marrés e mares que subi e desci.

Sempre-viva, viva, viva, vivo-morto.

Se faz noite em dia quente o que há para gente?

Mãe-da-rua que me trouxe um pedaço da lua!

Os bacuris, bacuraus, roubam as bandeiras, derrubam os bandeirantes.

Pimenta, pimentinha, pimentão, fogo, foguinho, fogão.

Senhoras e sonhadores pulam num pé só a estrela nova-cela, o céu, o inferno, a amarela.

Do pula que pula, do pega que pega, gritam, suam, vibram.

Voam em bolas, bilas, pedras, petecas, céu é seu, é meu, nuvem-avião.

Mire, veja, espie, pique-pega-esconde, bate-cara, corre, escapa e vá pro olho da rua.

Rua que cabia o mundo todo.

Nos quadros das calçadas, os coloridos das tiras de plástico davam forma aos assentos arco-íris.

Casas, causos, histórias, anedotas que ainda ecoam de porta em porta na esquina da memória.

Ah! Se essa rua, se essa rua fosse minha, eu mandava eternizar.

*Nossos parentes Makuxis consideram a Cruviana a deusa do vento e da neblina, que à noite se transforma em uma suave brisa, acompanhada de nevoeiro, responsável pelo enamoramento com a terra em que se nasce.

OUÇA “MÃE DA RUA” NA VOZ DA AUTORA:

Publicado por arlete mendes

escrevinhadeira, educadora, mãe de meninos e meninas, amante da música, da literatura, da vida!

9 comentários em “Mãe-da-rua

  1. Me lembrei da infância… Essa infância faceira … Uma escrita que nos remete ao fundo da memória e traz a tona um sentimento muito profundo de um tempo que não volta… Obrigada por fazer rememorar…

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  2. E esse embalo, esse ritmo, essa condução a texturas, cheiros, lembranças e jeitos únicos e memoráveis de existir na infância e num lugar ancestral que é sagrado e que sempre será? Nos vemos e nos cantamos nas sutilezas e miudezas de uma vida vivida numa ciranda de felicidade.

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