Onde as louças moram?

Foto: Ocupação “Povo Sem Medo” em São Bernardo / Fonte: Ricardo Stuckert – Fotos Públicas.

Ana Karina Manson

Quando ela era criança odiava guardar a louça. Cresceu e continuou odiando. Mas guarda quase diariamente. A louça não toma banho sozinha, tão pouco sabe andar até máquina de lavar.

Quando menina, pensava que guardar a louça era uma espécie de serviço subalterno. O principal era lavar. Só os maiores podiam mexer nos vidros com espumas e águas correndo como cachoeira. A ela ficava o que era menor. Ela também era a menor da família.

Assim ela pensava, porém um dia, quando lavava a louça, afinal já era adulta, era mãe e tinha em suas mãos o poder de segurar os pratos, ensaboá-los e enxaguá-los sem que escorregassem ou quebrassem, seu pensamento-sentimento mudou.

É preciso dizer que às vezes nos iludimos achando que crescemos e temos o poder de segurar a vida nas mãos, mas de repente ela escorrega, quebra e lá vamos nós colar cacos, juntar os pedaços de nós mesmos.

Pois bem, certo dia, enquanto lavava a louça, chamou a filha de três anos para guardar. Sabendo que a menina pequena, como ela foi um dia, poderia quebrar os vidros, entregou à menina os potes plásticos, os talheres, os copos com desenhos de personagens infantis e, a cada item entregue, a menina lhe perguntava:

― Onde este pote mora?

― Onde este copo mora?

― Onde esta colher mora?

E ao ouvir as perguntas da filha, a mãe foi percebendo que para a menina não se tratavam de coisas. A menina personificava cada utensílio. E havia beleza naquilo.

Eles não ficavam no armário simplesmente; eles moravam no armário. Dividiam espaços. Os garfos, colheres e facas dividiam a gaveta como tantas vezes ela ouviu falar sobre crianças na favela que sem ter suas próprias camas, dormiam todas juntas numa única cama ou algo que se acostuma a chamar de cama. Os copos se empilhavam como as pessoas se empilham em apartamentos sem perceber suas verdadeiras carências.

Há tantos copos pensando que são mais importantes que colheres ou garfos! Nem percebem que estão, cada um a sua maneira, empilhando carências.

Para a pequena de três anos cada um tinha sua casa, cada louça-pessoa tinha onde morar. Nesse momento, a mãe pensou no quanto o tempo da infância é sagrado com suas crenças em fantasias que deviam ser reais.

Nesse momento, a mãe pensou em como que uma pequenina trata plásticos e potes como pessoas enquanto tantas pessoas são tratadas como objetos. Ou mesmo maltratadas e destratadas como se não pudessem sonhar em morar, em comer, em dormir, em viver.

Ao anoitecer a mãe colocou a menina em sua cama e foi para seu quarto. Quando deitou pensou nas louças que dormiam tranquilamente em suas prateleiras e nas pessoas que não dormiam.

Ouça na voz da autora

2 comentários em “Onde as louças moram?

    1. Tantas reflexões lindas, tanto cuidado com o que também é coisa que só mesmo o coração de uma criança para tanto. Os humanos precisam aprender de humanidade e totalidade com as crianças. Esse texto me enriquece a vida, Ana. Gratidãoooo ❤️

      Curtir

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: