Cápsulas de serenos

Colagem etérea de Raíssa e Shantal.

Por Raíssa Padial Corso

Mesmo diante da clareira, um suspiro, dois suspiros.

Mesmo caindo pelas tampas em qualquer botequeira campo limpense.

Mesmo assinalando com devoção todos os textos, para formarem -se referências dentro da própria retina.

A resposta ainda era Não.

Mesmo assaltando sempre o próximo minuto, o próximo acerto, concordando com a cabeça que aceita, que ficou com a próxima, a resposta ainda assim, era sempre Não.

Já fazia muito tempo que havia se mudado para aquela ilhazinha. Buscando desesperadamente ao menos entender o Não.

Já fazia tempo que havia dedicado seus afazeres a sudokos, e rabiscos, tentando sempre encobrir a ânsia daquela sonoridade, aquela negação. Quantos chás de artemísias a desintoxicariam, quantas madrugadas com a TV desistindo dela mesma, dormir já era mais leve, havia grilos, havia lírios matinais, sabia seu caminho ao pisar o pé no chão as 6 as 7 e as 8, vislumbrava um dia despertar sem a urina presa, a ânsia de descarregar, quando acordava já estava no vaso, levantava, se olhava e toda vez que sua retina encontrava sua retina refletiva, reflexiva era como se as letras saltassem e  gritassem não.

Mas automaticamente o cheiro de centeio a chamava, desbravava fermentações naturais na ânsia de também aprender a crescer, multiplicar.

Inspecionava raízes as tirava da terra buscando os seus sismos, suas veias aterradas, a simplicidade que só água e terra proporcionam. Sentia a brisa leve de enterrar a si mesma, caçar hobbies, peixes, embora sempre soltasse, se admirava diante do próprio escárnio da vida, em repetitiva frustração em demasiada compaixão, isso era a sua esperança seu tíitulo de capitalização futurista, tentava ancorar todas as histórias que faziam suas veias pulsarem e sabia que girassóis sempre se iluminavam, davam-se a sempre outras chances, outras camadas de sementes, outras pétalas de fogo, aquela vida não poderia ser sempre de mal me quer…..

Investigava minuciosamente, arqueóloga que era, como poderia voltar no tempo e ainda ser a mesma, regurgitar sorrisos que a atolaram, profundos abismos de quem se faz equilibrista de paradoxos, fiscal de adubos, soprava para o mar como se os barcos estivessem em seu domínio e Bamburucema a consolava mesmo quando todo dia era mais um dia….observava as leis do universo, só assim conseguia dormir….sempre as estrelas explicavam, a cigarra replicava mas a coruja sempre vinha cantarolar os seus Nãos, a negação da alma, a negação do profundo. Boiava cintilante com sua aura de espadas de São Jorge, nos caminhos mais tortuosos, enxergava beleza até mesmo em carcaças, e cada couro, osso ou peninha, que encontrasse em seu caminho, abençoava…carregava em sua pele as certezas da morte, dialogava constantemente com as foices nas paredes e entendia cada lâmina como um suspiro de outrora, doravante a frente, doravante antes.

Era cursada em matemática e outras ciências e implorava que se extinguisse a paciência, a sapiência, a sabedoria lhe doía, pois no corpo são outros meandros, corpo pulsa e vê, lambe e chora, enuviasse em êxtase de prazer…

Só almejava arquitetar destruir em seu ouvido, em seu cérebro tudo que ressoasse a palavra Não, cambalear sem urgências por qualquer madrugada consciente…

Os bêbados a amavam, já os poetas sentiam muito por ela, por sentir demais seu corpo fervia e mesmo ali diante do vilarejo…era estampada em sua cara a face de todos os beijos os regozijos disfarçados de elogios…mas o som do Não deveria ruir.

O som da fixação de portar o indicativo dos limites, os vilarejos das auroras, gostaria sempre de pousar em pôr de sol, armar barraca na floresta de ouro kalk, as jades submersas nas rochas que a sustentavam, pulsavam , chamavam, cantarolavam ladainhas de libertação, e ela fatigada, ancorava suas coragens e despia-se para o mundo.

Acreditar no lírico foi se tornando seu remédio, não confiava em vacinas, alopáticos, apenas sabia que eram capsulas de serenos que a salvariam….a calma cintilava em seu peito e sempre que possível era alimentada qual oferenda, um peito de altar é o que a resignava….sonhava com as idosas, com seus cheiros de fubá, com seus afetos bordados em guardanapos, suas mesas de natal meticulosamente alinhadas, cromatizadas e sintonizadas. Seu devaneio era tornar acessível a negação sem negar o Não. Sem camuflar o Não. Sem dizer Não para o Não.

Aquele Não que a rendia, sublimava e espancava…sabia que palavras eram placebo, logo passava e se inundava mais e mais, a vida a suprimia com tal êxtase de emoção que ela bailarina, equilibrista fazia do N escorrega, do A uma casinha e do O sua ciclicidade. Já para o tio, para ele nunca, existiu não.

Eis que a cobra lancinante de tantas observações, acuada em sua terra, em seu solo úmido, não ousava sua subida, as músicas das esferas a dominaram e viu se subindo sim, igualzinho tia Zéfina contava em suas histórias, “As fábulas são quereres de almas libertárias” dizia ela.

As cobras ensinam o sim. Os Ésses ensinam o sim.

A palavra pode tudo.

Menos inexistir.

396hz Solfeggio, Destrua Bloqueios Inconscientes e Negatividade, Meditação, Cura

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