diabo-deus, o pensamento

“Galatea das Esferas”, Salvador Dalí (1952)

“Não há devassidão maior que o pensamento.
Essa diabrura prolifera como erva daninha
num canteiro demarcado para margaridas.”

Wislawa Szymborska

por Celane Tomaz

pensar para existir. dispenso. por vezes queria a vida-possível que habita o não pensar-me. existir sem a força e a dor de atribuir sentido ou razão de ser. apenas existir. mas no profundo mistério mudo detrás da retina mora o diabo-deus – o pensamento.
mesmo sem a língua, o mesmo corte – movimentos, momentos, memórias que sangram. relação de criação e criatura – que cria e orna do pó da terra para devolver a ela e nela padecer e definhar. nasce de sopros e sopros de fôlego de morte-vida que o faz alma (sobre)vivente.
pensar.
é como devorar o fruto proibido num jardim do éden imperfeito, mas de terra tão fértil quanto, com a fome de uma árvore inteira. tocar, cheirar e morder o fruto do bem e do mal, degustando o prazer da consciência nítida da própria nudez e vergonha.
nos pensamentos, estonteia-se com os secos goles de passado e ternura, de presente e loucura. bebe-se e exerce-se a embriaguez do ódio e da cólera, da misericórdia e do amor em doses e medidas do cálice dissipado pelos lábios mantidos cerrados.
neste desmundo, perde-se e encontra-se em caminhos e atalhos, entrega-se e lança-se às armadilhas, morre-se e vive-se tantas vidas, exercendo o poder de um deus e a astúcia de um diabo.
performa-se e expande-se em espaços mínimos, impalpáveis e irreais, ao som de tímidos devaneios. entre as paredes que o contornam, no escuro em que se despe, só as vozes o veem. a liberdade usufruída, mesmo cerrando os dentes.
em pensar, comprime-se a existência dentro da imensidão de um lugar onde nunca amanhece ou anoitece. vive-se sob sombras sóbrias e sombrias. vive-se o tempo regido por uma órbita singular, no meio do caos dos fragmentos de rochas e explosões.
no pensamento – nesta atmosfera suspensa em meio à austeridade e ao delírio, é possível ser o que se deseja ser, à espera do que ainda não se sabe.
o desejo.
no universo-pensamento, a natureza invisível pode ser carnal. o desejo é realizável e permitido. o desejo é instinto fundamental.
pensamentos – ajunta-os como gravetos para o fogo, dispersa-os como cinza e poeira. finca-se a raiz de sentido(s) em terra adubada de incompreensão. um buraco que quanto mais se escava, mais se expõe aos vermes que vivem embaixo dessa terra.
pensar é um excesso no meio dos vãos e dos vazios. e a razão é a vazão que escorre seca entre as entranhas.
espera-se o sono.
vã tentativa de fugir do cárcere que o faz cumprir a pena numa invenção, amarrado numa teia tramada por uma aranha que se prende e se condena à própria agonia.
rasga-se o tempo pela navalha do silêncio. nele é onde se sustentam ruídos e barulho. dolorosa sensatez que se põe a pendurar-se e salvar-se num fio de distração.
entender como quem fecha os olhos diante da evidente luminosidade que cega ao iluminar.
desfalecer na potência de voz invisível e surda.
dentro de tanta claridade – vivida em sigilo e solidão.

12 comentários em “diabo-deus, o pensamento

  1. “pensar é um excesso no meio dos vãos e dos vazios. e a razão é a vazão que escorre seca entre as entranhas.”
    O que é isso???? Como me diz, me sou e acho que me entende…
    Sou sua fã!!!

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    1. acho tão incrível isso na escrita – essa espécie de “poder” em traduzir e alcançar o outro de maneira tão íntima e singular. grata pela leitura, Ana

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  2. Nos pensamentos vivemos e alimentamos os nossos mais belos e vis segredos.
    “… degustando o prazer da consciência nítida da própria nudez e vergonha.” Só no pensamento vemos e tocamos a nossa nudez, sentimos prazer em revelar nossas vergonhas.

    Curtido por 1 pessoa

  3. Perfeito!!! Você conseguiu com palavras descrever as várias dualidades presentes no pensamento e a angústia de não conseguir evitar esse ” no meio do caos dos fragmentos de rochas e explosões.”
    Conseguiu poetizar esse caos. Parabéns!!!

    Curtido por 1 pessoa

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