Vendetta

Reading Orpheu (1954) – José de Almada Negreiros (Foto: Flickr)

Arlete Mendes-

-Não sei, já disse que não sei.

– Estava ali ontem mesmo.

– Vida é movimento…

-Livros não se movem.

-Você que pensa. Já vi muitos saírem correndo, gritar palavrões, esmurrar, dar chutes, tiros e facadas.

-Gracinha.

-Obrigada!

-Passa o pão. Vou ficar com artigo emperrado, parei numa citação de cabeça, precisava do livro.

-Inventa.

– Que foi? Comeu bolacha palhacitos?

-Borgeana.

-Tô de saco cheio de suas piadinhas literárias. É tão bagunçada que deve ter empilhado meu livro na sua zona.

-Mata, teu Pai.

– Que?

-Grace Passô.

-Que é? Está cheia de alegorias? Acha que sou seu complexo de Édipo mal resolvido? Passa o parmesão, espirituosa. Devia ter me casado com alguém que não goste de livros, metade dos meus problemas estariam resolvidos.

-Se eu não tivesse me casado, acho que não teria problema algum. Os livros já me dão o prazer que necessito para viver. Apesar de alguns me azucrinarem por um bom tempo, me darem até pesadelo. Sonhei com as formigas vermelhas de Macondo por meses… mas nada que uma próxima leitura não resolva.

-unff!

-Deixa de ser mal-humorado, vai? Se você fosse um livro qual gostaria de ser?

-Hoje? “Era dos Extremos”, o livro que você deu fim.

-Acusar sem prova é perjúrio!

-O convívio já não é prova suficiente? E você, de leituras tão bagunçadas, ah, acho que nem saberia qual.

– Você que pensa…

Não comeu nada. Lavou os pratos com um riso incompreensível no canto da boca.

Cumpriu os ritos insossos da rotina sem sentido, lavou-se. Esperou insone até que o outro adormecesse.

Quando pode enfim ouvir seu próprio pulso, ergueu-se.

Sentiu o calor dos pés esvaindo-se no piso frio.

Caminhou a passos lentos até o escritório.

Retirou uma pequena chave debaixo de um vaso de comigo-ninguém-pode. Abriu a última gaveta da escrivaninha imbuia, avistou ali um caderno de capa preta e folhas amareladas, abraçou-o como quem reencontra um amante há muito não visto.

Releu ávida as primeiras linhas e sobressaltou-se, como quem se espanta ao revelar um segredo a si mesma.

Tateou na mesma gaveta um lápis carcomido. Empunhou da sua arma carbonácea, vingou-se até adormecer, em êxtase, debruçada sobre o caderno, no sofá.

Acordou com o outro gritando do quarto, mal notara sua ausência na cama.

-Não acredito, Vera, olha só… junto das camisetas brancas! Será que o guardei aqui enquanto me vestia para o trabalho? Me agiliza um café? Estou atrasado. Será sinal de Alzheimer?

Vera Lúcia, correu até a última gaveta imbuia, trancafiou-a, escondeu a chave debaixo da comigo-ninguém-pode, fez uma nota mental enquanto caminhava para o quarto.

Aguar as plantas. Levar o lixo pra fora. Comprar cebola. Ir ao banco. Entregar planilhas. Reunião às 13 horas.

-Ei, e meu café?

Com olhar travesso de criança malina, emulou surdez, indo direto para o banho. Dessa vez mais demorado que o de costume.

Ouça na voz da autora “Vendetta”:

Fundo musical: Karina Buhr “Eu menti pra você”

Publicado por arlete mendes

escrevinhadeira, educadora, mãe de meninos e meninas, amante da música, da literatura, da vida!

9 comentários em “Vendetta

  1. Algumas publicações só podem ser póstumas rs. Essas vinganças que poderiam promover uma grande guerra interna/externa, por exemplo. Texto bom demais!!!!

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    1. Fiquei pensativa sobre que livro quero ser, sobre que final eu mudaria rsrs Macabéa se apaixonando loucamente pela vidente rsrs o livro que quero ser ainda não existe e existe ❤️ adorei as chicotadas rsrs

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