Lente de velha

Raíssa Padial Corso-

Elaborar a mais remota possibilidade.

Borbulha mulher, saúdo a intenção, a emanação,

a rede entrelaçada do que não vemos, a teia mais longínqua…

Yo se que un día volverás…Amor, amor de fogo,

vísceras compatíveis com a nossa substancial humanidade.

Yoio limpa as rugas empoeiradas da anciã, essa foi sua primeira cilada.

-Acende fia, a eterna fogueira. Disse a velha.

Nesse caminho a caravana do incontínuo que pulsa o ritmo.

Yoio Junta lenhas cruzadas.

-Antes é necessário cheirar, o fogo tem outras intenções.

No fogo se encarna. No fogo se rompe, perpassa moradas.

-Tú já se perguntou onde as salamandras moram?

Naquele ponto da noite tudo era distopia. Sabe aquele estado de fingir que tá acordada?

Já passava novamente das duas, puta que pariu, exclamou.

De novo, o relógio sempre fungando no seu cangote, e a velha ali, na frente dela, como fumaça,

com aquele olhar de pedir fogo.

Com a boca de implorar fogo.  Álcool Etílico. 

Não tinha por onde fugir, a velha era carregada pra qualquer paisagem. A velha tava colada na sua pupila, como lente, como cisco.

Só podia. Só pedia. 

Era na praia, na beira do mar e a velha lá no meio da areia, com olhar pidão:

-Vai! Bota mais lenha, enquanto a história não terminar eu num saio daqui!

Já faziam 8 meses da mesma velha, colada na pupila.

Era no meio da reunião, no balcão do buteco, no jantar de família, brasas nunca a contentavam,

sempre olhava com o olhar de “taca mais!”

Mas naquele dia, só importava o sabor da champanhe,

era a tão aguardada festa da empresa, era a sua chance. Como ela se manteria na sua pompa,

com a velha exigindo continuamente lenha?

Isso quando não exigia que ela própria,

 buscas e seiva no parque público da esquina.

Tinha madrugadas inteiras que a velha só reclamava:

-Enquanto não me der o fogo que mereço,

a precisão, o aroma, a direção, o carvalho exato, eu não vou embora!

Ambrósio olhou pra Yoio e ergueu de longe sua taça. Ela só tinha aquele sinal à anos,  ela queria esse boy,

e a bendita velha em seu olho gritando:

-O mocinha! Pra que esse sorrisinho?

Eu quero saber da minha lenha!

Já disse que isso aqui tá tudo errado!

Nunca vi em pleno inverno um fogo para o norte… onde já se viu?

Não se respeitam os mortos nessa terra aí?

Saiu com seu vestido tubinho de veludo verde em direção ao jardim,

agachou rapidamente,

pegou alguns gravetos,

juntou com um guardanapo e acendeu.

-Toma sua velha maldita!

Me dê pelo menos 3 horas. Saia da minha vista!

A velha as vezes sentia pena de pedir tanta lenha, mas tinha sua função, suas responsabilidades.

Era de sua ossada contar a história inteira, era um cisco no olho pra ensinar.

Voltou do jardim, pegou imediatamente outra taça,

ela só tinha 3 horas sem a velha, a fogueira iria apagar, a velha não se rendia a abanar o fogo,

sua lombar não permitia.Bebeu a taça num só gole.

Na vitrola tocava  “Un Amor” de Gipsy Kings.

Ambrósio a seguia com o olhar, aquele era o momento, se esbarraram perto da lareira, ela apreciava esse momento,

nos primeiros minutos sem a velha, sua vista clareava,

tirava seus pinos, seus véus.

Não podia perder tempo, sorrateiramente deslizou dançando pela sala,

seguiu para fora.

Ambrósio seguiu seu rastro, seu cheiro de canela,

 ele já havia observado por muitas vezes terra em suas unhas. O coração de Yoio acelerou a sentir a presença do seu esperado.

 Já se passaram anos

desde a primeira brecha.

O bom champanhe que bancara na festa devia borbulhar algo a mais do que dentro de sua calcinha.

Foi pro canto da garagem já tirando seu vestido.

Encarcada já gemia, encharcada e em transe.

Aos poucos a velha começava a piscar na sua vista.

-Cadê minha lenha, sua puta?

Tocava seu grelhinho e o cheiro de fumaça exalando de seu olho, cheiro do xale da velha.

-Já tá apagando! Cê num tá vendo? Essa safada só quer gemer.

Fazia 5 meses que não dava, acelerou o ritmo da sua bunda e foi gritando:

-Cê quer fogo? Cê quer fogo? Cê quer fogo? Cê quer fogo?

Ahhhhhhh!

Colocou o seu vestido, se despediu do boy.

E a velha lá, com cara de satisfeita, sorriso de lado, impertinente como só ela.

-Agora sim, bora dormir quentinha.

Yoio tinha insônia, a velha no seu olho, além de inconveniente, também roncava.

Ouça “Lente de velha” na voz da autora.

Música incidental ” Mira la Itana Mora”, Gipsy King

10 comentários em “Lente de velha

  1. Sou apaixonada pela literatura fantástica. Esse conto me fez lembrar dessa paixão e de outras, combinação perfeita ente o personagem realista e a supra real que o move, que o impulsiona a ação. Rico em simbolismos, rico sonoridade, cheiros….uma bruxaria perfeita! Estreia, magistral, Salve, Raíssa!!!! Vida longa a sua escrita poderosa.

    Curtido por 1 pessoa

  2. O conto tem dessa capacidade de contenção, enqto deixa entrever nesgas de inusitesas entre frestas. Melhor ainda se essas, às vezes, estalactites, sao precedem a verborragia. A linguagem, o modo inusitoso com que certas autorias saudam as velhas tradiçoes, nesse tempo de há mto tempo em q já disseram tudo nós os homens, é o ouro do pó no ar. mas é necessário ter o q dizer, além de artimanhas da palavra. Um tema pode ser um nada. Nada, pode ser o relicário. Quem domina o nada sabe o q dizer. Ocê tem a palavra, Raíssa. Y vem em lentes antecessoras. Pr renovar o q já se disse, nós, os homens!

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  3. Saúdo a estreia da mana Raíssa com a velha presa nas pupilas, com a vista embaçada pela fumaça do fogo que ardeu aqui durante a leitura/escuta.

    Seu texto foi chama do início ao fim. Ardeu! Quanta ancestralidade, quanta magia e encanto. Um dinamismo arrebatador.

    “Antes é necessário cheirar, o fogo tem outras intenções.
    No fogo se encarna. No fogo se rompe, perpassa moradas.”

    Que o fogo do teu verbo reverbere!
    Que a velha venha e não nos deixe de visitar!

    Curtido por 1 pessoa

  4. Que estréia, braselll! Perfeita construção de personagens, enredo e muita ancestralidade que pulsa na velha, no ver, no abuelo fogo. Que felicidade transitar contigo, minha irmã nessa construção fantástica! ❤️

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  5. Seja bem vinda Raissa!
    Sempre quando lembro de vc , me vem a poesia sobre Oba e Osun…
    Agora me vem com mais essa pra agregar a paixao de seus textos !

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