Lugar de mulher preta é no poder

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Uma mulher que amanhecia antes do nascer do sol. E adormecia, quando a lua iluminava no meio do céu. Durante o dia, dividia-se, ou melhor multiplicava-se para dar conta dos diversos afazeres no salão de beleza e a rotina cotidiana de uma mãe solo. Não tinha tempo para garantir para si, os mesmos cuidados que oferecia com apreço a sua clientela de alta classe.

Trabalhava como manicure e auxiliar de limpeza em um salão de beleza, localizado na esquina com o metro quadrado mais caro da região do Morumbi, poucos metros da rua principal que dá acesso a favela do Paraisópolis, comunidade em que Elaine cresceu e vivia desde a infância.

A patroa exigia um cuidado atencioso com as clientes. Em seu discurso, afirmava que nós mulheres só temos umas as outras e que a função do salão era cuidar delas com muito zêlo, ajudando a todas no despertar de seu poder feminino.

Elaine só ouvia.

Era uma mulher de poucas palavras e escuta atenta. Enquanto dava conta de suas tarefas, ouvia as histórias das madames que circulavam por ali e também as que eram transmitidas nos telejornais diários que acompanhava ouvindo a TV que ficava na recepção do salão.

Entre uma história e outra, tentava compreender como poderia coexistir tantas visões distintas e diversas de uma mesma realidade. Como as histórias que ela presenciava no cotidiano eram distorcidas por aquelas figuras do salão e da televisão. Próximos na presença e no cotidiano, mas bem distantes da realidade em que vivia.

Entre discursos “empoderados”, ouvia com enfado, os monólogos das madames e a “difícil” missão de equilibrar a rotina de monitorar a vida escolar dos filhos, estudantes da escola mais cara da cidade, pensar o cardápio da família, preparado diariamente pela cozinheira, e fiscalizar o trabalho da empregada doméstica, responsável pelo asseio do lar e os cuidados com os filhos, não os paridos, mas os filhos da patroa.

As solteiras, discorriam a relatar os martírios de ser uma mulher independente, de não depender de homens e desconstruir a imagem de filhinhas de papai, enquanto pagavam os cuidados semanais das suas unhas, com a mesada que se equiparava com o salário recebido por Elaine em sua dupla-função.

Verbalizavam caminhos que as mulheres precisam percorrer para romper os elos de submissão. Dos maridos à família. Diversos métodos não testados por elas mesmas.

Entre histórias diversas, um elo em comum: Todas que empunhavam esse discurso afiado, sobre a importância do protagonismo feminino, justificavam suas reclamações com essas mulheres majoritariamente pretas. Sobre o guarda-chuva da meritocracia, faltava empoderamento e dedicação, destas mulheres, para “vencer” na vida.

Sobre as mulheres negras, como Elaine, comparavam a exceção como exemplo de regra meritocrática: ‘Se algumas conseguiram ser até apresentadoras do jornal das oito, todas conseguem.’ E por isso, o racismo, era desculpa de quem não tinha coragem de romper com os padrões da sociedade. Assim, como elas tão bem faziam dentro de seus castelos feitos de cristal.

No canal sintonizado diariamente na TV, os noticiários se revezavam em justificar as diversas violências contra a mulher. Mulheres negras, ou quase todas negras e seus filhos, quase todos pretos e mortos antes de completar a maioridade. Moradoras das periferias. Tratadas com um protagonismo inverso nestas histórias, como autoras de ações que provocaram alguma reação violenta. Justificando e minimizando a dor destas mulheres.

A culpa era do amor passional que a mesma despertou em um homem possessivo que, infelizmente, sucumbiu aos labirintos tortuosos da paixão. Ou a outra que não se protegeu direito ao voltar sozinha em uma rua escura, ao retornar a casa depois de um dia de trabalho. Ou, não deu educação necessária para o filho, que sempre é associado ao tráfico, quando morto pelo Estado, ou aquela a mulher que roubou uma manteiga, mas a justificativa da fome se torna secundária na manchete que expõe incessantemente, sua face preta e cansada das misérias do cotidiano.

Entre um jornal e outro, a propaganda eleitoral traz quase sempre os mesmos homens brancos de sempre, e as poucas mulheres loiras, como a maioria das frequentadoras do salão, difundindo o mesmo discurso como propaganda de candidatura que exalta o poder das mulheres, quase sempre brancas e ricas.

Elaine morava em uma casa ocupada as margens do córrego e sofria de tempos em tempos as ameaças de desapropriação pela prefeitura. As segundas, dia de sua única folga semanal, participava das reuniões na Associação de Amigos do Paraisópolis, para partilhar a comunhão e a empatia daqueles que dividem as mesmas agruras do dia a dia.

As reuniões eram coordenadas pela presidente da Associação. Dona Edite. Uma mulher negra, como quase todas as outras que viviam ali, mas que carrega em sua bagagem de vida, a sabedoria dos setenta anos de muita luta para sobreviver, sem deixar de cuidar da sua comunidade.

Nestes encontros, Dona Edite versava sobre tempos em que a comunidade se organizava para realizar mutirões e construir as moradias que agora compunham aquela que era uma das maiores favelas do Brasil. Contava de como as mulheres negras foram protagonistas para garantir acesso a alguns direitos básicos para a população e conquistaram com muita mobilização e pressão popular, a primeira escola e o único posto de saúde que atende até hoje toda a comunidade.

Entre histórias de lutas que tiveram desfechos vitoriosos, trazia em seus relatos histórias violentas vividas por estas mesmas mulheres que, preocupadas com toda a comunidade, precisaram enfrentar de frente o poder dos homens brancos e ricos que ocupam as instâncias de poder neste país.

Na luta em 80 pela constituinte, dona Edite viajou pela primeira vez de avião e rumou em direção ao Distrito Federal. Fazia parte também dos movimentos eclesiásticos de base da Igreja Católica e estava lá para representar as pessoas que vivem às margens da cidade e da garantia de direitos. Além dela e de outra companheira, eram as únicas mulheres nesse comboio até a capital do país.

Ao adentrar o Congresso, se deu conta de que precisava ir ao banheiro. E perplexa recebeu a informação de outra mulher negra, auxiliar de limpeza que trabalhava lá, que não haviam banheiros para mulheres. Já que as mulheres não eram eleitas para os cargos de deputadas federais, naquela época. Quando esporadicamente, havia a presença de mulheres, as mesmas precisavam usar o banheiro dos funcionários da limpeza.

E se não fosse um absurdo o que já havia presenciado ali, Edite não imaginava o que estava por vir e que marcou profundamente sua trajetória de luta. Entre as atividades que percorreram os dias, a comissão da qual fazia parte se dividiu para que cada um falasse com uma quantidade de deputados pela aprovação da Constituinte.

Entre a ida de um gabinete a outro, encontrou um assessor que inicialmente se mostrou simpático a causa. Ele era responsável pelo gabinete político de um deputado reeleito cinco vezes. Natural do Maranhão e dono de muitas terras no Mato Grosso. O apoio deste deputado poderia ser determinante para aprovação da Constituição com os setores mais conservadores, representados no congresso nacional.

Edite apresentou o projeto da constituinte e estava disposta a escuta-lo e apresentar argumentos que validavam importância para toda a sociedade brasileira. O assessor, se mostrou sensível a causa e enquanto versava sobre os grandes méritos da atuação do nobre deputado que representava, disfarçadamente, trancou a porta do gabinete e pousou as mãos nos ombros de Edite.

Um arrepio gelado percorreu a coluna vertebral de Edite de ponta a ponta. Rapidamente, o assessor tentou agarra-la à força. Edite gritou e tentou se soltar da armadilha tecida para capturar e violentar o seu corpo. O assessor a segurava com força e dizia com raiva que ali não era lugar de mulher, muito menos mulher preta. E que as pretas, só tinham lugar no meio de suas pernas.

Edite, em um ataque de fúria para expulsar do seu corpo as violências vividas por todas as suas ancestrais, chutou por todos os lados. mordeu a mão que abafava sua voz e gritou com todas as suas forças para que o corredor inteiro pudesse ouvir. Ao mesmo tempo, conseguiu se desvencilhar das mãos daquela ser asqueroso. Destrancou a porta e saiu aos prantos, correndo no corredor, procurando desesperadamente a saída. As pessoas que circulavam por ali, ao vê-la, disfarçavam a comunhão sobre o que tinha ocorrido segundos atrás.

Edite guardou este episódio com muita dor em sua memória e desde então, nunca tinha contado a ninguém. Elaine foi sua única confidente e ser guardiã deste segredo, foi determinante para fazer uma escolha que poderia mudar radicalmente a sua vida.

Conhecendo na pele as angústias de não se ver representada nessa sociedade como parte dela e ter seus direitos constitucionais garantidos, como parte do legado de dona Edite, mas que para os corpos negros nunca chegou de fato, e vivendo o paralelo de uma cidade e seus grandes abismos sociais, Elaine decide concorrer nas eleições municipais para a cadeira de vereadora, previstas para ocorrer naquele mesmo ano . Afinal, naquela cidade, não havia nenhuma mulher negra vereadora, mesmo sendo terra de tantas mulheres como dona Edite.

Elaine, pela sua escuta silenciosa, embora não fosse uma escuta empática, disfarçava bem e era assim, bem quista pelas madames. Até o momento que decidiu disputar esse espaço de representação e poder.

Ao anunciar sua candidatura, foi demitida sem direito a nada. Afinal, não tinha registro em carteira e nem contrato algum. Ao organizar os seus pertences, escutou a chacota generalizada não só da equipe do salão mas das clientes que riam e questionavam sua escolha, baseadas em argumentos jocosos.

Ironicamente dizia que Elaine ia defender as bolsas-esmolas, cotas e a proliferação das favelas e suas gentes, essas coisas que elas acreditavam ser os fatores dos conflitos sociais que vivíamos. A manutenção de seus privilégios, para elas, estava acima de qualquer direito humano e fundamental à vida de todos.

Antes de sair, Elaine virou e como um último adeus, disse à todas:

— Uma mulher negra em movimento, abala as velhas e pálidas estruturas de poder, que sustentam a base de privilégios em que mamam e arrotam esse empoderamento feminino que só considera mulheres semelhantes á vocês. Se eu for eleita, levo comigo todas as outras, a maioria das mulheres, quase todas negras, que caminharão, em frente, até ocuparmos TODAS as instâncias de representação e de poder.

Não há volta.

E para o desespero de vocês, Palmares renascerá novamente.

Após as eleições, a dona do salão de beleza, assistia o discurso de posse dos vereadores eleitos. Entre eles, Elaine, mulher negra e periférica, ex-funcionária explorada do salão, eleita como a vereadora mais votada da cidade de São Paulo.

#VoteemMulheresNegras

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