Ofício

Carolina Tomoi-

Há tempos tenho pensado em escrever sobre meu ofício. Um assunto engasgado, travado. Um receio de cair num mar de lamentação ou num muro de ostentação. Pensando em definir-me pensei que talvez pudesse definir meu ofício: a parte de mim que escolhi trocar diariamente por sobrevivência. Deve-se ter cuidado! porque quando se faz as coisas por obrigação, mesmo coisas que amamos, corre-se um risco grande de se perder o amor, o tesão, o brilho nos olhos… pois bem, agora o assunto se fez urgente!

Não porque temos sofrido ataques e mais ataques, não só do governo, mas também da opinião pública que desacredita na escola pública e consequentemente, naqueles que estão no front cotidianamente. Por mais que tenhamos falado repetidamente há décadas que não é possível existir educação de qualidade em salas super lotadas, que é necessário papel sulfite para produzir material para os estudantes, que “grade” curricular não deveria existir, que o acervo de livros precisa ser instigante e atender a todos, que o conhecimento precisa ser estimulado, que os suportes necessitam ser modernizados…

Não porque temos virado memes em redes sociais e em manchetes de jornal que comparam nossa formação com a pedagogia tiktokiana ou linguagem youtubesca. Por mais qualificados que tenham sido nossos anos de formação inicial, inevitavelmente trabalhando para conseguir estudar e sustentar também a casa; muitas vezes tentando por anos fazer provas de concurso e conquistar assim uma certa estabilidade ante a incerteza de cada novo ano-emprego-letivo. Depois de conseguir o emprego estudar ainda mais e permanentemente: libras, braile, psicopedagogia, história e formação do povo brasileiro, literatura feminina, cultura afro-ameríndia, linguagens territoriais e todas essas coisas que só aprendemos quando continuamos a estudar e que parece nunca suficiente, nunca ter fim… porque conhecer é infinito.

Não porque de uma hora para outra tivemos que abrir mão do tete-a-tete, do olho no olho, do abraço e do beijo na hora de ir pra casa, da hora do parque, das histórias nas salas de leitura, nos filmes com sessão pipoca e mais 33 amigos, do sorriso da tia da merenda. Das conversas trazidas fresquinhas de casa, das correrias e encrencas do recreio, das broncas e risadinhas às escondidas, dos olhares cruzados revelados em eclipses silenciosos. Do conhecimento que se realiza frente aos nossos olhos enquanto lemos, perguntamos, observamos, calculamos, demonstramos, dialogamos, esperamos, refletimos, enxergamos todo mundo junto.

Não porque apesar de tudo isso trabalhamos há quase um ano na solidão de nossos lares, utilizando recursos próprios – mais uma vez estamos comprando nossas “folhas de sulfite” – sem curso e no curso criando conteúdo e metodologia para ensino remoto, à distância ou a frio se bem desejar, ainda assim tachados de vagabundos, bundas desbundes… e também incompetentes.

Não é sobre ser o profissional de nível superior mais desvalorizado do país o ensaio de hoje. Resolvi falar sobre o que é ser educadora, professora ou docente pra dizer que somos a categoria que deve falar com juízes, promotores, advogados e estupradores pra mostrar de uma vez que se as mulheres dizem “NÃO” é não! e que não existe, – eles nem precisam chegar na universidade, podemos dizer pra eles bem antes de cursarem direito – que NÃO EXISTE ESTUPRO CULPOSO. Juntos podemos ler, perguntar, observar, calcular, demonstrar, dialogar, esperar, refletir, enxergar e concluir que todas as pessoas têm direitos inalienáveis e o primeiro deles é decidir sobre o próprio corpo e ninguém pode obrigar quem quer que seja a fazer o que não se quer fazer. Devemos tentar, mostrar aos estudantes como é vasto e diverso o universo e quão belo é saber aproveitar sendo parte.

Como nem todos ouviram continuemos falando, continuemos tentando.

De ofício.

5 comentários em “Ofício

  1. Bom dia, me vi em cada parágrafo… A maneira como descreve o que passamos , entre sonho e a realidade…bonito…dolorido….. poético…insana a nossa existência em dados momentos …

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  2. Lembrei de um poema de Paulo Paes… Nada a fazer além de roer os ossos do ofício “…Gosto muito desse engendramento trajetória pessoal, análise crítica-reflexiva, contexto histórico, olhar poético. Um caldeirão de bruxa. Quero aprender !!!

    Curtido por 1 pessoa

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