Pequeno-grande amor

Meninos Brincando, 1955 – Cândido Portinari

Ana Karina Manson

Estavam na cama a menina de cinco anos e a mãe, quando a pequena sem a olhar disse “Mãe, o Tim Maia tem razão”. A mãe, como deve parecer óbvio, estranhou a afirmação da filha que falara como se conhecesse pessoalmente o Tim Maia, como se fosse alguém com quem tivesse conversado diretamente algum dia.

A mãe, então, como também deve parecer óbvio, quis saber o porquê da afirmação da menina que lhe disse “Alguns nascem para sofrer enquanto os outros riem”. A mãe achou graça e para entender ou para continuar a conversa com a menina, afinal como saber se um dia quando for uma moça ela ainda conversará de maneira tão leve com a mãe, contando seus pensamentos, pediu à menina para dar um exemplo do que dizia.

A criança trouxe imagens da sua infância, aquelas que a gente recorda com saudade depois do passar implacável do tempo. Então, disse à mãe: “Quando eu caio na escola, todo mundo ri.” E ainda mais, como se fosse contar um segredo, olhou com uma expressão impossível de descrever, mas que todos certamente tiveram, pelo menos um dia na vida e continuou: “Todo mundo, menos uma pessoa”. E não ousou dizer o nome, mas a mãe sabendo já da grande aventura de viver da filha de cinco anos leu o nome em seu sorriso discreto. Era seu pequeno-grande amor da infância.

Como podia a menina com tão pouca idade já entender tanto da vida? É real, “alguns nascem para sofrer enquanto os outros riem”. Enquanto os outros riem animados dentro do carro que até balança ao ritmo da música alta ao se dirigirem ao mercado fazer a compra para a viagem à praia no feriado prolongado, um sofre no farol pedindo uma moedinha, fazendo malabarismo com as bolas, com o fogo, com a vida. Às vezes os olhares dos que sofrem até cruzam com os olhares dos que riem, mas alguém lhes disse no viver das coisas que é assim mesmo. E o menino do farol é só mais um elemento da paisagem urbana.

Mas a menina há de ter razão. Há de haver um que não ria, que estranhe essa paisagem e que não aceite que caiba nessa imagem uma criança pedindo o que o mundo lhe nega como se ela precisasse mais de favor do que de amor. Há de haver aquele que se incomode com a criança tão tarde da noite fora da cama ou tão cedo fora da escola. Há de haver quem olhe nos olhos da criança, mas também no corpo e se indigne com a falta da blusa na noite fria, a falta da brincadeira, a falta do cuidado, a falta da infância. E no coração da mãe o seu maior desejo era só que a filha, quando moça, quando mulher nem sofresse e nem risse. Que como o menino solidário com a amiga que caiu na escola, ela também crescesse solidária com aqueles que sofrem. Talvez seja esse o maior desafio da maternidade hoje, pois se em outro tempo era criar um filho feliz, agora é tentar desesperadamente que ele não se deixe convencer pelas falas tão preconceituosas que ecoam em nossa sociedade, que ele lute pelo que é justo em sua vida e nas dos outros. Talvez o maior desejo de uma mãe é que os filhos, as filhas transgridam a verdade cantada por Tim Maia e nem sofra, nem ria, mas que ame como o pequeno-grande amor da menina

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2 comentários em “Pequeno-grande amor

  1. É triste que não consigamos mudar essa situação. “A cada um conforme sua necessidade, de cada um conforme sua capacidade…” lanço aqui também meu sonho de sociedade!

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