Mariantônia

fonte: http://www.dw.com

As primeira horas anunciavam um dia de sol e céu aberto. Aroma de café e manhã fresca convidando para, em meio ao silêncio, contemplar o canto dos pássaros acordando o dia e os primeiros sinais das gentes em movimento.

Maria Antônia, sentou em sua cadeira no quintal e entre um gole de café e outro, observava as plantas do jardim se desenvolvendo. Registrava com suas retinas cada pequeno movimento cíclico da vida, desde o brotar de uma folha, ao envelhecer amarelando as pétalas das flores que coloriam o cenário cinza do concreto que cercava o pequeno quintal no fundo de casa. 

Era o momento do dia preferido para Maria Antônia. O breve e único momento de silêncio, respiro e de entrega a si mesmo. 

O ritual diário do café no jardim, alimentava esse olhar miúdo. Eram as poucas horas para perceber as plantas manifestando a vida em pequenos movimentos diários, seus pensamentos tentavam focar no presente momento em movimento. O que tinha para fazer hoje, embora fosse muito parecido com o ontem, necessitava destes momentos para que as suas forças, não fossem tragadas pela locomotiva de afazeres que anunciava o início da dura rotina de três turnos diários de trabalho. 

Maria Antônia, começava as oito horas da manhã como diarista em um consultório dentário. O turno se encerrava às treze horas. Dali, corria para o terminal de ônibus para pegar a linha T4302, sentido Jardim Ângela e garantir lugar no coletivo. Trazia consigo, um carrinho de mão que levava além de outras coisas essenciais para o seu dia, sua marmita, pronta para ser servida ali mesmo. Somente desta forma, poderia garantir a mínima disposição e completar as tarefa diárias. 

Não era raro os dias em que seu turno no consultório se estendia. E estes atrasos, garantia que Maria Antônia ficaria sem almoço e sem a esperança das horas extras pagas corretamente.

No segundo turno, ou melhor, no segundo round da luta diária, era merendeira de uma escola pública do fundão do Ângela. Trabalhava naquela escola há cinco anos e mesmo na correria do dia a dia, observava o desenvolvimento dos garotos e garotos dali, como se pudesse satisfazer a falta de convivência com seus filhos. A rotina de três empregos lhe ceifava essa oportunidade. Ao sair para trabalhar bem cedo e no retorno ao lar às tantas da noite, fazia com que sempre os encontrassem dormindo. 

As dezoito horas, encerrava o expediente na escola e novamente, era aquele corre corre até o terminal. Ao chegar, tentava encontrar o espaço mais estratégico antes da catraca de entrada. O local escolhido deveria ser passagem para as pessoas que chegavam e que saiam do terminal. De dentro do carrinho de mão, uma espécie de mini vassoura, um tecido de chita e pacotes e mais pacotes de meias. 

Limpava o local com sua mini-vassoura e cuidadosamente, estendia o tecido, colocava as meias e uma plaquinha com os dizeres “ 6 meias 10 real” 

Nos dias de calor e estiagem, as vendas eram abundantes. Era raro o dia que voltava com algum par de meia. Nos dias bons, trazia doces e besteiras. Se fazia presente na ausência. Nos dias de chuva e frio, onde mesmo, improvisando lona para proteger as mercadorias, pouco ou quase nenhuma venda conseguia garantir o mimo para as crias.

Já não distinguia seu nome composto, não era mais Maria Antônia, era Mariantônia. Na correria e no malabarismo de suas funções, a chamavam sempre emendando um nome no outro, assim como as diversas atividades tecidas no seu fazer diário. Não havia respiro a dar entre eles. Qualquer segundo economizado significava o cumprimento integral de suas tarefas e consequentemente, a garantia mínima de sobrevivência. 

No terminal ficava até às onze horas da noite, o horário de fluxo de pessoas retornando de seus empregos, emendava com a saída da faculdade. Esticava as horas na esperança de retornar para a casa com o carrinho vazio e a sensação de satisfação pela garantia do pão. 

Ao chegar em casa, sabia que ainda não era hora de seu corpo ter um momento de pausa e cuidado. Havia ainda a preparação do outro dia. Comida para deixar pronta e garantir a alimentação das crianças e por último a preparação da sua marmita. 

Antes de poder, finalmente, tomar um banho e ir dormir, passava no quarto das crianças silenciosamente. Observava a tranquilidade dos seus corpos adormecidos e ainda, colhia os cadernos de cada um e fazia aquela vistoria rápida. Só para garantir que, caso houvesse alguma reunião de pais ou outro compromisso com a escola, pudesse  dar conta de estar presente e antecipadamente, criar formas mirabolantes de dar conta de mais essa tarefa. 

Nesta rotina diária de respiro preso no peito, seu jardim era o local do meio. O lugar que Maria Antônia, agora era composta. Se aninhava ao silêncio das únicas horas dedicadas à ela, somente. Uma mulher que não escolheu ser guerreira, mas que tece formas para ter forças e para estar em pé e pronta para as trincheiras do amanhã.

6 comentários em “Mariantônia

  1. Doideira! Ontem assisti a entrevista da Nélida Pinõn. Gosto dela e da literatura q ela faz. Entretanto, ir para um ambiente e interagir com o cenário apropriado e estimulante para a construção de uma narrativa é um privilégio classista. Sem rancor. Ela pode. A Lígia e a Clarice tb. Não desprezo essa possibilidade.
    Por outro lado, fazer e inventar num ambiente q nos assusta e comove todos os dias, pode ser algo diferente.
    Não há um roteiro. Nem de um lado. E muito menos do outro.
    O q habita esses espaços são as imagens da criação.
    Em consonância com a Nélida: a literatura e criatividade está presente onde a criatura se liberta dos pecados e das algemas q a cultura nos impõe.
    A liberdade, principalmente, a libertação feminina, vive numa luta desprendimento constante das imposições históricas.
    A Conceição Evaristo não foi eleita vomo

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  2. Vou continuar aqui. A Conceição não foi eleita pq não seguiu determinados trâmites. Em resumo, não se entregou à representação ritualística da academia. Que para uns é manutenção de trajetórias 3 não se confunde com questões raciais ou de gênero ou sociais e assim por diante.

    Curtido por 1 pessoa

  3. Difícil comentar depois do Clayton, mas eu adoro!
    Mara, estou aqui ofegante… Me vendo entre esses periféricos caminhos poéticos pelos quais nos conduziste. Vejo viva a imagem das Mariantonias que conheço e respeito e amo… Nós sendo nós literatura sendo verdade! Agradeço…

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