Desobediências

Solidão – Mateus Lopes

Ana Karina Manson

Ela teve dois filhos de um casamento que durou pouco.

Ficou viúva.

Viúva.

Mulher viúva, jovem, naquele tempo, não podia. As pessoas podiam falar. E também como sustentar as duas crianças sozinha? As poucas oportunidades que apareciam eram para mulheres solteiras e sem filhos.

Ela era um ser estranho na sociedade hipócrita, que idealiza modelos de famílias, torturando muitas mulheres debaixo de um silêncio cruel.

Ela sendo viúva era um desaforo! Por que o marido tinha que morrer?

Para o pai, já estava tudo resolvido: filha casada era sinônimo de paz; não precisava mais se preocupar com a honra da família.

E agora tudo se desarranjava com a filha assim tão jovem, tão bonita, sozinha, sendo alvo da conversa alheia.

O pai tratou logo de arranjar a situação e arrumou um pretendente para a filha.

Tratava-se de um velho senhor, também viúvo, que causava asco à jovem.

Ela recusou-se ao casamento.

Sofreu muitas humilhações, mas nada doeu tanto quanto a decisão do pai em expulsá-la de casa se não aceitasse o casamento arranjado.

Não aceitou. Foi a maior desobediência de sua vida.

O pior para ela nem era ser expulsa da casa do pai, mas partir sem os filhos. Por amor, aceitou a condição de ir e deixá-los. Assim, teriam garantido o que comer.

Ela partiu deixando ali toda sua alegria; precisava trabalhar, sonhando em um dia ter condições de buscá-los.

Seguiu a vida, trabalhando arduamente nos afazeres domésticos das casas alheias e via mães que tinham seus filhos ali, debaixo do mesmo teto, deixando para ela o cuidado, o carinho, o abraço que ela desejava tanto dar aos seus e não podia. Foi abraçando e acalentando os filhos de outros ventres.

Ela abraçava as crianças e seus olhos marejavam, desejando abraçar seu menino que crescia longe da sua vista e sua menina, cujo destino temia que fosse semelhante ao seu. O avô havia de querer casá-la logo para garantir a honra.

Os dias foram passando e foi se acostumando a doer. A saudade é dor crônica e já nem sabia existir sem esse sentimento, que por vezes dava mão à esperança de um dia voltar a ter os seus em seu colo.

Às vezes se enchia de coragem e se preparava para enfrentar a ordem do pai de que nunca voltasse à casa dele, mas o peso da obediência estava impregnado em suas entranhas, de modo que sentia o homem assombrá-la em suas noites insones.

O tempo envelheceu.

Um dia, o coração apertou mais forte, teve medo de morrer sem nunca mais deitar os olhos naqueles que tiveram em seus braços o primeiro colo. Nunca mais era uma expressão que doía profundamente; doía mais que as contrações que tivera para que nascessem.

O medo do nunca mais é o que às vezes vence a obediência, vence as amarras que com o tempo já cortam a carne e se encoraja a correr em busca do para sempre.

Ela se encheu dessa coragem e desobedeceu a ordem tão antiga. Buscou os seus e quando os encontrou já não eram seus, não tinham donos.

O pai, muito velho, carregava o fardo dos arrependimentos, que o tempo cobra.

Os filhos tornaram-se donos de seus destinos. O menino, agora homem, morava longe, em outras terras e era um bom pai, o que nunca tivera. A filha, contrariando o avô, usava calças, decidira estudar, trabalhar e construía sua história também longe daquele lugar em que a mãe há tanto tempo a deixara.

Ela não viu seus filhos, não olhou em seus olhos, mas seu coração acalmara-se e agradecia em saber que não tinham seguido os mesmos passos que ela. Agradecia por serem filhos tão desobedientes!

Agora sabia que ainda os encontraria.

Ouça nossa voz.

7 comentários em “Desobediências

    1. Oi
      Bom dia!!
      Li agora o seu texto.
      Emocionante…chorei ao lê-lo .
      Essa história retrata situações bem atuais, por incrível que pareça.
      Às vezes, veladas…mas a ideia sobre a mulher ainda é muito forte.
      Temos muito a fazer pra transformar esses valores.
      Ainda bem que estamos na educação. Assim temos chance de problematizar essas situações.
      Obrigada, é bom lembrar que a luta DEVE continuar.
      Parabéns 😘😍

      Curtido por 1 pessoa

  1. A voz dessa mulher é um grito plural. São tantas mulheres que um excesso de coragem no silêncio da desobediência e o assombroso medo do nunca mais. Choram nas distâncias da incompreensão, as leis dos homens. Choram firmes uma vida pela liberdade dos seus. Texto emocionante e cheio de verdade.

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