Desta vez, vou deixar morrer o amor

            Espero por todo o tempo um cuidado que me acaricie. O vento o faz. Uma constância da busca pelo abraço que me aconchegue, encontro no sol. Suas vestes pelo chão não foram gastas comigo. Nossos olhos pouco se tocam, negros olhos que pouco se cruzam. Nunca mais eu me perdi em emaranhados de cabelos, pelos, dedos, cheiros.

            A perda de si o do outro se esfrega na minha cara devagar e lentamente como antes roçava-se em mim a sua mão trêmula. Nada mais muda com a nossa companhia, o frio é frio, o calor é insuportável e obriga algum líquido descer de meus olhos… Estou me acostumando com a sua vontade de solidão. Vendo-me espremida em qualquer outro cômodo da casa, nada que eu possa fazer lhe ajudaria, nada do que não posso mais me anima.

            Estou me aprontando devagar para entrar no túnel de volta aos meus pertences íntimos, indivisíveis. Acumulo razões para gostar do vazio ao redor. Não há atmosfera, gravidade ou vontade de plantar novas sementes. O calor é insuportável, não há mais líquido que se esprema para regar essas raízes. Sinto que algumas unhas se vão, fios de cabelos pela casa serão encontrados até a morte. A dor é lenta, sórdida. A paciência tem sido a maior parte de nossos dias. Respiros, suspiros, cortam o peito, aliviam a presença.

            Num passo pequeno e agoniado me demoro. Ouço o choro de quem dói. Observo solene o vexame que é pedir amor, eu quero dizer, amar dá trabalho, cuidar é entrega, orgulhosos que somos, não temos mais o que colher, nem como alimentar. Deixa esse amor chorar, deixa…

            Enquanto os ciúmes se transformam em uma coceira naquele ponto das costas onde está seu coração. Meus dedos não alcançam.

E eu caminho maquinalmente pela vida, tendo em mente que ela não tem sentido algum… Que a melhor saída na tempestade é cobrir os olhos, abaixar a cabeça e esperar passar.

            Será que haverá sementes?

11 comentários em “Desta vez, vou deixar morrer o amor

  1. Quantas imagens arrebatadoras para traduzir as faltas, os vazios, silêncios que cortam. Uma bela tradução do momento em que o amor desvanece e os corpos e o espaço se diluem com ele. Lindo que dói!

    Curtido por 1 pessoa

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