UM Menino

Carolina Tomoi-

Dois anos se passaram desde que o casal decidira que teriam a segunda filha. Calculadas as probabilidades genéticas, a mãe estava certa que conceberia outra menina. Porém, a essa altura do campeonato não esperava mais nada… fazia tanto tempo que combinava o calendário com preservativos que esquecera do antigo projeto: a irmãzinha!

Nenhuma gravidez é como a outra e esta chegou sorrateira, azias mas não enjoos, nada visível. Difícil detectar. E de repente num estalo como um rojão num domingo de futebol, a notícia estonteou, deu mais que falar que o lanterna do campeonato naquele ano. O pai, que há quase dois anos já esquecera a certeza de retomar o antigo projetinho, embasbacou-se por acreditar que estivera imune a sua nova interessante situação. Ensimesmou-se por um tempo, mas logo recobrou a consciência.

Seguindo todas as orientações pré-natais, chegou o esperado momento do ultrassom morfológico, pois ele confirmaria o crescimento sadio da pessoa em formação. Contentes em saber que tudo estava bem, os pais ficaram curiosos ao notar certa agitação do doutor, que quase não continha a pergunta que parece determinar toda sorte de uma pessoa, seu futuro e sua função social, sua posição jurídica, seu salário e quantas jornadas de trabalho cumprirá: “Querem saber o sexo?”

Com a certeza da resposta, tiveram o olhar guiado à tela de alto contraste até que puderam identificar os três minúsculos pontos brancos, como uma constelação brilhante, a contrariar todas as expectativas anteriores. Agora a mãe, ensimesmada, questionava-se sobre como ser mãe de menino, algo para qual ela nunca havia sido preparada adequadamente. Ela sabia como uma mulher deveria ser: forte, resistente, leal, acolhedora, lutadora, inovadora e vários outros -doras, qualidades que se não são natas, devem ser cultivadas desde cedo pra que elas aguentem o tranco. Ela sabia como ser mãe de menina.

“Um menino chegará e terei a missão de fazê-lo um homem!” Era isso que esperavam dela? É possível FAZER alguém, assim? Como ser mãe de menino? Questionava sua capacidade para esse feito, mas que tipo de homem seria, que valores cultivaria, estaria para o apego ou abandono, seu coração se espremia entre os sustoluços preocupados e outros órgãos espremidos pelo bebê em seu ventre crescido, enluarado. Carinhoso, sensível, seguro, bom dançarino mas e os -dores: acolhedor, lutador, inovador? Também o quereriam assim, a seu menino?

Todas as suas apreensões transformaram-se, reviraram, cresceram… transformaram-se em seu menino e também na mãe do menino e também na família toda. Compreenderam quando o viram que os únicos sentimentos necessários eram amor e respeito. Assim o fizeram, assim cresceram, a família cresceu.

Do lado de fora nem todos compreendiam que o menino era pra ser livre. Livre das cores, por isso as roupinhas que ganhava de segunda mão, além de muitas que herdara da irmã mais velha, permaneceram em seu guarda-roupas. Livre das convenções, por isso brincavam de bonecas, trocando fraldinhas e consolando naninhas. Livre dos controles, por isso era consolado se chorasse como menino ou como menina ou melhor: como criança!

E ele cresceu, e quis correr, quis voar, quis nadar, pular, brincar, e fez de conta, foi mágico, dona de casa, astronauta e papai, foi feirante e lutador, cientista e jogador, fez maquiagem, pintou a unha, pintou a cara, pintou o sete, cortou cabelo, cortou a unha e deixou cabelo crescer. Curtiu rock, gostava de ovo e lia gibi todo dia. Jogava videogame e também ficava triste às vezes… que vida de criança não é fácil.

E sobre seus longos cabelos negros, que às vezes resultavam em trocas de artigos nas bocas de vendedores e recepcionistas e até em brincadeiras sem graça, aprendeu a não se chatear, pois sabe que são atos de amor e coragem deixá-los crescer livres.

Ouça UM Menino na voz da autora:

10 comentários em “UM Menino

  1. Lindo e emocionante. Parece que foi ontem que nasceu… Miguel é uma criança linda e seu rosto, seu olhar, expressa todo o amor que recebeu e que tem para ofertar. Ser mãe é sempre desafiador, pois para cada filho faz-se necessário o despertar de saberes e sensibilidades antes não conhecidos. E assim vamos nos tornando pessoas mães tal como eles vão se tornando gente. E muitas vezes, ouvindo-os num conversar, durante uma refeição,
    divagamos nos perguntando o quanto eles têm da gente, deixando tal devaneio transparecer naquele sorriso sequer iniciado no canto dos lábios, no mistério dos olhos que sorriem largamente satisfeitos. Ainda que seja um deleite sentirmos que fazemos parte de um outro alguém, como mães, apreciamos ainda mais descobrir o quanto deles existe em nós.
    Te amo Carol, amo esta família linda!

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  2. Carol tem a capacidade de nos envolver com o detalhe de suas palavras, a gente começa lendo o seu texto e em instante já estamos vendo, já não são mais suas palavras, e, sim nossa imaginação. A mãe, a menina e o menino é o seu auto-retrato.

    Curtido por 1 pessoa

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