Mãe de menino

Por Juliana da Paz

Foto de Joaquim da Paz Gadelha

A maior sensação de paz materna que se aporta em meu peito é vê-lo dormindo. É um sono lindo e cheio de saúde, abrigo, esperança e amor. É um sonho.

            Eu deito e sonho também!

“Observar que nossa sociedade foi fundada nesse sofrimento, nessa dor que é para os homens serem transformados, desde o ventre, em pessoas que vão se importar pouco com os sentimentos, que não vão respeitar os afetos, que não podem falar de amor, que não podem ser “moles” e amáveis, que não devem mostrar desinteresse sexual por mulher nenhuma… Os meninos crianças sofrem, há séculos, essa inculcação de que não devem saber lidar com relacionamentos com mulheres. Que isso não é importante. Daí se transformam em pessoas que amam, mas não sabem lidar com entrega, não sabem lidar com o sentimento da outra pessoa, nem com os próprios. Serão denominados menos que os outros se o fizerem. Na infância serão excluídos de brincadeiras por gostarem de cozinhar, ou usarem um boné cor-de-rosa, por segurarem uma boneca, por abraçarem um amigo, ou por não reagirem com brutalidade a toda e qualquer situação. Na adolescência continuarão a ser destituídos de sua capacidade de construir amizades saudáveis com mulheres, a essa altura já não valorizam nada que venha do mundo feminino, tudo é mimimi e frescura. Para serem machos vão comparar tamanho de pau, vão consertar o mundo na porrada, vão estudar menos, vão achar normal impor sua dor da repressão infantil sobre as meninas com quem se relacionar… Vão se sentir mais fortes e mais, mais, mais que elas… Vão jogar seus demônios de dor, suas feridas abertas, nos relacionamentos afetivos, pois o direito ao afeto responsável, à empatia, foram negados antes. Na idade adulta serão chamados de dominados se resolverem negociar de igual para igual com sua mãe, amiga, ou parceira, conhecerão a morte mais cedo porque compactuam com a violência, ou porque não protegem seus corpos das doenças, jogam a opressão recebida na infância e na adolescência em cima de suas parceiras, pois já foram tão subjugados em sua humanidade. Onde ela anda? Na infância? quando suprimiram sua vontade de amar, sua potência de diálogo, sua vontade de cuidado, sua liberdade de ser quem é? Mas não vamos tratar tudo isso que o faz doer, que o faz sofrer e causar dor, porque homem não chora, não fala de sentimentos…  E era uma vez uma mãe tentando lutar contra esse mundo todo! Era quase só ela mesmo, tentando educar as pessoas ao redor, indo à escola reclamar do que disse a professora sobre o seu filho brincar de cozinhar, dando duras em quem fala que seu filho criança é namorado de alguém, ficando atenta a qualquer movimento de quem fala “para com esse choro, menino” ou “seja homem”… Elaborando estratégias cotidianas para que seu filho não se torne seu pai que não se cuidava nem cuidava dos seus, seu ex-namorado que não a assumia, seu amigo do trabalho que a interrompe na fala, seu colega da escola que tentou agarrá-la no jogo de futebol, seu parceiro do teatro que estuprou uma garota bêbada, seu companheiro que até pouco tempo não sabia demonstrar carinho em público, seu chefe que desconsidera seus conhecimentos e títulos, seu primo que morreu no bar porque precisava do álcool pra se sentir poderoso e arranjar confusão…”

Ela venceu! ACABOU!

OUÇA AQUI, NA VOZ DE JULIANA DA PAZ

8 comentários em “Mãe de menino

  1. Ju, também tenho os mesmos anseios… Me preocupo muito com meu menino… Mas acho que é essa a forma: Amá-los demais! Vamos juntxs construindo um mundo sem machismo, pra meninas e meninos e menines!

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  2. Ju, compartilho de tds esses sentimentos e percebo em minhas relações com homens e mulheres essa cultura ainda muito enraizada.
    Espero fazer diferente com os meus, para q nossa sociedade mude e nossas mulheres sejam tratadas com igualdade, nossos homens consigam se expressar sem medo de julgamentos, e compreendam que a partilha em td é necessária para uma boa relação.
    Quando eles dormem o coração aquece e conseguimos ver a pureza das crianças rs.. pq nesses tempos de pandemia quando estão acordados na maior parte do tempo estão ligados no 220 rs…

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    1. Jú Paz , compartilho desses sentimentos há décadas. Voltei no tempo aqui.
      Tive 4 gestações, 1 interrompida no inicio , depois gestei 3 meninos, pude acompanhar 2 durante as frases e me via caminhando , orientando contra tudo que essa sociedade dita como certa quer impor.
      Gratidão por compartilhar sentimentos tão reflexivos e sensíveis. Beijo no ❤️

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  3. Ju, compartilho de tds esses sentimentos e percebo em minhas relações com homens e mulheres essa cultura ainda muito enraizada.
    Espero fazer diferente com os meus, para q nossa sociedade mude e nossas mulheres sejam tratadas com igualdade, nossos homens consigam se expressar sem medo de julgamentos, e compreendam que a partilha em td é necessária para uma boa relação.
    Quando eles dormem o coração aquece e conseguimos ver a pureza das crianças rs.. pq nesses tempos de pandemia quando estão acordados na maior parte do tempo estão ligados no 220 rs…

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  4. Estamos juntas nessa luta, às vezes com esperança num mundo diferente, às vezes nem tanto… Você não está só, desaprendemos o que nos foi ensinado para tentar ensinar diferente. Eu por aqui, mãe de meninas, o coração também aperta.

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  5. Também é meu sonho! Avó de dois meninos vivo atenta, para que cresçam felizes, sendo o que desejarem ser, sempre se respeitando e respeitando todos e todas. Parabéns!

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