o ser e o nada

Alberto Giacometti

Arlete Mendes-

Tenho impulsos para o nada. Sou atraída pelo vazio que transpassa a silhueta das árvores, pelo canto ainda não ecoado dos pássaros e pelo desejo da palavra ainda não irrompida. Há uma força de empuxo que me leva para os vãos, para o vazio que há entre os seres, matéria constituinte da órbita dos átomos.

Vãos, que por vezes, se vão nos abraços.

Ele me abraçou, perguntou porque estava assim, caminhando com um olhar perdido no meio da casa. Temia minha loucura? Inconscientemente fez o que precisava ser feito, ou desfeito, preencheu-me o vazio com um abraço e a mente com uma pergunta.

Passei a semana ruminando esse sentimento.  Porque me sentia tão perdida? Vagueando pela casa. Ligando a máquina de lavar roupa para lavar o nada. Aguando as plantas até transbordarem. Deixando o forno ligado sem nenhum assado.

 Quando me dava conta dos vazios, algo me impelia para dizer não a todos os sins que já havia dito. E tenho dito muito sim. Brotava uma gana repentina que oscilava entre corresponder as expectativas que as demandas exigiam e a vontade de fazer absolutamente nada. Entregar-me a noite ainda em seu vazio inicial, repousar sobre esse vazio, adormecer.

A escolha gera um aprisionamento, o vazio é nascedouro de liberdades, liberdade de criar nos  vãos, encontrar as frestas, entre o átomo e a anti-matéria. Eu queria a anti-matéria. Voltar ao quando não. O. Não para criar, não para ser, apenas estar.

Não estou dentro de mim, porque esta carcaça se tornou pesada demais, ocupada demais, falante demais para existir. O silêncio veio pedir licença para fazer uma pequena morada. Meu olhar só procura o intangível. O nada fez seu pouso, sopra dentro de mim.

Ainda que ninguém entenda. Ainda que eu não entenda. Nasci para estar perdida e nunca me encontrar.  No vazio esvair-me. Só posso existir aonde a forma ainda não nasceu, aonde ninguém disse sim, nem não, não sou eu quem moro nele, ele me habita, vivo e morro no vão.

Algo de novo se move, verme, inseto ou flor, não preciso lhe impor um nome.

(música incidental: sons do sistema solar capturados pela Nasa)

Ouça “O ser e o nada” na voz da autora:

Publicado por arlete mendes

escrevinhadeira, educadora, mãe de meninos e meninas, amante da música, da literatura, da vida!

7 comentários em “o ser e o nada

  1. Como precisamos desse vão e como nos é negado tantas vezes, até por nós mesmas que, no automático, seguimos enchendo as máquinas do cotidiano e fazendo funcionar suas engrenagens…

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  2. Clarice nos fala que perder-se também é caminho, sua escrita me lembrou estes versos, e lembrou-me também desse vazio movimento, dessa angustia que é liberdade por poder com ela ser algo inominável ou não. sua escrita é preciosa ❤

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