Feitiço da lua

Praia do Puruba – arquivo pessoal / 2001

Ana Karina Manson

— Puruba que é bom! – gritava aquela gente que ousava ser feliz.

Era mesmo muita ousadia viver sem quase nada do que o tal mundo moderno inseriu em nossas vidas, que sem perceber achamos natural ter celular, ter micro-ondas, ter cremes, ter maquiagens, ter computadores e outros como se fosse essencial, como se fizesse parte de nossa condição humana.

E lá nem adiantava ter celular mesmo: nada de sinal nunca! Os sinais que recebíamos eram só os que a natureza nos enviava. E ficávamos assim, por dias, alheios ao mundo e suas tragédias cotidianas.

Até a perda incalculável da fantástica Cássia Eller só soubemos por que em toda roda com violão de repente, naquele trinta e um de dezembro, só se tocava “Malandragem”.

E vivíamos a malandragem de ser felizes. Lá podíamos ser “bonitinha, mas ordinária” e brilhar o corpo com spidogiros*, atravessando o rio com água morna em noite de lua. O quente da água era sinal de que naquela hora ele era mais mar do que rio para no outro dia voltar cheio, gelado, devastador.

Parecia que à noite – ao menos em algumas delas – um feitiço da lua o permitia banhar-se, enamorado, pelas águas do mar.

Foi a música que ouvi há pouco que me levou nessa viagem para tão longe no tempo e tão dentro de mim; tão lá em Puruba, onde não havia fogos no Ano Novo, bastava aquele céu estrelado, amigos, amores e o novo ano se iniciava iluminado. Era fácil acreditar na vida; era fácil ter fé.

O encontro do rio com o mar era a certeza dos bons encontros que a vida traria, era certeza de ser livre e feliz o ano inteiro.

Hoje só queremos que o ano acabe; que o ano inteiro, ou melhor, os quatro anos inteiros passem rápido, desapareçam com aqueles que destroem tudo que é natural, tudo que é vida.

Ah, como era fácil acreditar na vida; ter fé.

Às vezes só queria acreditar mais uma vez…

* spidogiros: nome criado pelos amigos frequentadores para definir os plânctons que ficavam no corpo e nos iluminavam.

16 comentários em “Feitiço da lua

  1. Ana Karina, vários prazeres aqui: de reviver Puruba pelas sensações, as do texto e as da memória, de poder mandar seu texto aos amigos que também compartilharam comigo viagens de liberdade lá praqueles cantos, e a de me encontrar com você em memórias comuns insuspeitas. Eu gostaria de ter escrito esse texto… e de voltar a ter esperança no Ano Novo também.

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    1. Que coisa boa esse encontro de lembranças desse lugar que nos ajudou a ser! Quem sabe ele ainda nos acolha reviva essa esperança que tem sido tão difícil nesses nossos dias.

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      1. Oi Karina, como é bom ler o que você escreve, cada texto nos traz uma lembrança, uma saudade … muito bom. Parabéns

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  2. Até quem não viveu, como eu, queria ficar aos pés na areia sob a luz da lua, com corpo livre e aos efeitos de seu feitiço. A liberdade tem cheiro de mar, textura de areia e vista para as estrelas!

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  3. Ana Karina, a delicadeza da sua voz, das suas palavras, dos seus gestos, sempre me transportam pra outros mundos. Geralmente, fico como 7m ser submetido ao conflito. Vc tem a paz q me leva ao tranquilo universo das revoluções planetárias. Kkkkkkkkkkk. O contraditório q está presente na delicadeza da conjunção com a natureza. Entretanto, me incentiva ao conflito da violência revolucionária.
    É isso.

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  4. Que bom te transmitir essa paz que nem eu encontro kkkkk. E que bom essa revolução constante também! É o contraditório necessário!
    Obrigada pela leitura.

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