Do fundo de um quintal de várzea

(https://br.depositphotos.com)

– Mara Esteves

São Paulo – Zona Sul.  Utopicamente em isolamento. 2020. Mês 10. Ano 4.

Uma rosa vermelha abre-se em flor. Colore o cenário cinza e resiste em meio a outras espécies que padecem. A vida insiste em brotar em meio ao caos. As representantes resilientes da beleza,  nutrem formas de esperançar vida em meio às calamidades da macro-realidade.

Os pequenos respiros dedicados aos afazeres cotidianos tornam-se essenciais para percorrer com um olhar intuitivo suspiros de paz nas coisas miúdas do jardim: o chão que precisa ser cuidado com zelo, a música que escutamos com o corpo e com todos os nossos sentidos adubando a alma e sendo solo fértil para ser cultivado: as sementes adormecidas ou abandonadas dentro de nós.  Momentos furtivos, conquistados pelo grito de quem não quer naufragar numa avalanche de produtividade insana, imposta por um bem maquiado e romantizado “home-office”. O novo normal que serve bem aos interesses do capital.

Partidas noticiadas chegam como um mergulho profundo na alma, emergindo luz e sombra. Luz para ritualizar à distância o luto. E as sombras, trazendo dores adormecidas,  sentimentos que vamos escondendo de nós, porque para “vencer” nesta vida, nos fizeram acreditar que precisamos ser fortes, sempre, em qualquer momento, mesmo que intimamente, sabemos que isso é impossível.  Para estes tempos chorar em posição fetal até não haver mais lágrimas, tem sido parte de um cotidiano doloroso, mas essencial para que se cumpra o ritual de despedida da dor, como um rio que corre e em seu caminho vai limpando nosso olhar e nutrindo nossas forças

São Paulo e seus arranha-céus erguidos pelas mãos de gente vinda de todas as partes do país com a promessa de uma vida melhor e segura, condena à morte, justamente aqueles que derramaram sangue e suor para construir a tal terra prometida. 

As gentes que colorem as periferias desta grande cidade que para cada barraco erguido foi necessário a compaixão e a empatia mútua, são submetidos ao ódio proferido cotidianamente nas televisões. A política institucional, as mazelas exploradas pelos telejornais, a miséria como recompensa de seus grandes esforços, a meritocracia para justificar as desigualdades. E agora, o ciclo se repete: é a nossa gente, na linha de frente para manter a roda girando e assim a cidade não pare, sem garantia alguma de sobrevivência. 

A grande metrópole que não para, a cidade das oportunidades. Para quem?

Em meio ao isolamento, contemplo o presente com os olhos voltados para o passado, buscando respostas e entendimentos para alimentar as forças e seguir em direção a um futuro que ainda não se descortinou.

6 comentários em “Do fundo de um quintal de várzea

  1. E sigamos nos reconstruindo, com paciência e resiliência… Nos fortalecendo para enfrentarmos esse sistema impiedoso que sempre se refaz sobrevivendo de nosso suco, de nossas almas! Resistamos! Belo texto!

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  2. Enquanto lia me vinha à mente um filme em que no porão uns alimentam a máquina e outros divertem-se e tomam vinhos tranquilamente. As injustiças que não cessam e corroem. Juntemos nossas forças!!!

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