Hoje é dia de maldade ou Até que a morte os separe

cena de O Porto das Caixas, Paulo César Saraceni, 1962.

Carolina Tomoi-

Eram duas pessoas ruins. Estavam bem disfarçados como um casal pacato e receptivo a vizinhos, parentes e amigos da vida toda. Mas quem os observasse de perto, notaria as grandes crueldades que habitavam aquelas mentes ardilosas.

Tinham um tipo de pacto silencioso que escondia aquele segredo até deles mesmos. Sabiam como eram tratadas as pessoas más e cruéis naquela sociedade. Como eram iguais, compreendiam como cúmplices inconfessos os prazeres alcançados por atitudes vis… por maldades cotidianas. Era sua crença, era a única chama capaz de mantê-los vivos, ardentes.

Em certas ocasiões ela fingia dormir, só para vê-lo arrastar-se sonolento, até o berço insone. Quando já desperto, à beira do leito, ele chutava seus chinelos com a força precisa que os faziam parar em local inalcançável debaixo da cama.

Todas as vezes que ele chegava próximo a um de seus inúmeros tapetinhos coloridos de crochê, fazia questão de embolar suas beiradas. Um a um ela os vinha alinhando e maquinando um contra-ataque. E bastava ele entrar suado após trabalhar no quintal debaixo do sol, para tomar uma golada da limonada mais geladinha e mais azeda que ela já lhe oferecera.

Assim seguiram, se re-espetando dia-a-dia, a cada nova oportunidade. Se suportamavam demais vivendo e revivendo suas vilezas. Sabiam que não encontrariam em outrem razão-motivo que mantivesse a chama acesa, que inspirasse uma calma e pacata vida de crueldades… e o tempo já não permitia que fossem embora um do outro. Ficariam ali, somente, projetando as crueldades da velhice… esconder um óculos, pasta de dente por pomada de assadura… que mais mentes torpes seriam capazes de planejar?

Ouça Hoje é dia de Maldade ou Até que a morte os separe na voz da autora:

A referência fotográfica, mais estética que impulsionadora, deve-se ao perturbador O Porto dos caixas, Paulo César Saraceni, 1962: “Uma mulher, querendo matar o marido que a oprime, procura ajuda de seu amante, de um soldado e de um barbeiro, mas eles se negam ao crime. A cidade do interior onde mora revela a decadência: uma fábrica parada, um convento em ruínas, o barulho de trem, um vazio parque de diversões, uma feira sem entusiasmo, um comício sem força reivindicatória. Disposta a libertar-se do meio, a mulher mata sozinha o marido”. (Extraído de RG/Filmografia)
http://bases.cinemateca.gov.br/, acesso em 04out20.

16 comentários em “Hoje é dia de maldade ou Até que a morte os separe

  1. Carol, por falar em roseana, vc sabe do “causo” presente no Grande Sertão: Veredas de Maria Mutema, que mata o marido com chumbo derretido no ouvido enquanto dormia? Vale a pena ler. Beijos 💋

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    1. Vocês exageram… Alguns ajuntamentos pq não há palavras sozinhas que expressem o que é a vida em comunhão…
      Mas essas histórias sempre são inspiradoras… Vou ler certamente… Essa escrevi numa manhã que acordei pensando se teria coragem de fazer um lobotomia pelo globo ocular de alguém. Hahaha

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