Náufragos

Claude Debussy :”Bateaux devant les falaises de Pourville”

Arlete Mendes-

Às vezes produzo diálogos que são garrafas lançadas ao mar. Lanço-me na esperança de resposta.

Espera, pausa, nunca esquecimento.

— Mulher, você é uma obra.

Não completou a frase. De arte? De construção? Do demo?

Quanto tempo já se passou? Éramos dois apartados, doloridos como quem acaba de enterrar um dos seus, golpe frio da lâmina no membro amputado, partíamos sem nunca sair do lugar.

A primeira vez que o vi, mastigava um queijo quente que quase não descia pela garganta, algum noticiário sanguinolento intensificava minha tristeza remoída, estava ali naquela padaria suja e decadente, ao lado dois desconhecidos que bebiam a vida num único trago, eu os invejava por não ter a mesma coragem.

Estava infeliz por ter de assumir mais uma jornada de trabalho, quando queria era me despir franciscanamente e sair cumprimentando o irmão sol e a irmã lua. Desilusão construíra grande morada em meu peito.

Senti raiva do vendedor de violência que não parava de sentenciar mais um não julgado à cadeia. Descontei numa dentada feroz no pão emborrachado. Sociedade do espetáculo, em que o mundo inteiro é um cárcere. Felizes as pombas que cagam sob nossas cabeças, ocupam nossos tetos e não se deixam aprisionar.

Levantei o olhar para além do queijo quente, estava ali, às pressas, devorando um salgado, vi tanta beleza que enrubesci.  Aqueles olhos apertados, cabelos em cachos, corpo moço, que inspirava força, raiva e indignação…. Solidão… Tão compenetrado em sua existência, nem percebera meu olhar invasor, foi-se. Como de costume quando vejo algo que me causa alumbramento faço um pedido.

Quando, enfim, tive a coragem de atravessar a rua e me entregar pela primeira vez a minha nova servidão, é ele quem avisto. Senti uma fisgada na ponta do dedo, uma farpa se entrelaçou a minha carne, contive o grito de dor. Sentei-me naquela sala e esperei que o dia acabasse.  E assim segui, imperceptível aos seus olhos.

Como passei a dizer um oi, por educação recebia um oi também. Minha memória apagou de como minha timidez intensa me levou a convidá-lo para sair, talvez algum daemon tenha possuído meu corpo e feito toda a negociação, sei que envolvia o ambiente virtual e muitos empurrões de algumas amigas, que temiam minha tristeza muito mais do que eu.

Se não fosse por ele, talvez estivesse ainda ruminando aquele queijo quente borrachudo ad aeternum,  ruminando feito boi a minha sina de não saber amar. Devo-lhe essa aprendizagem. Quando se deu o encontro, permeado por um filme de péssimo gosto, escolhido apenas pelo benefício daquela perturbadora presença, tive vertigens.

Depois disto deveria ter partido, não havia sinal para nada mais além… ah, se eu tivesse ido, mas fiquei e quis que ele ficasse. As histórias se multiplicavam, o cheiro, o toque, a pele, o deleite. Sherazade. Fui curiosa e covarde como o sultão. O certo seria decapitá-lo de meus pensamentos, mas não o fiz, sedenta por suas histórias, quis ouvir mais.

Como notasse meu transbordamento disse que sua nau estava à deriva. Como se é a vida? Não percebeu que eu era o mar. Por teimosia quis que soubesse, insisti.

 Afogado. Náufrago. Preso numa pequena ilha, o mar o assustava. Mirei naqueles olhos minha própria solidão, ao vê-la, assim, espelhada, refletida não suportei e parti. 

O mar só deseja o náufrago quando se esquece que em seu curso deságuam novos rios. Subi marés, destino de quem ama é navegar. Ainda que o mar seja solidão.

Hoje reli a mensagem da garrafa, carcomida pelo tempo e quis embalá-lo em meu colo, com meu canto, levá-lo até uma nova ilha de acalanto e mostrar-lhe do alto da penha a rebentação, que segue incontida, feroz e bela.

Ouça na voz da autora: Náufragos

Publicado por arlete mendes

escrevinhadeira, educadora, mãe de meninos e meninas, amante da música, da literatura, da vida!

6 comentários em “Náufragos

  1. Dos amores das ilhas perdidas, cercados por um imenso mar. A covardia em enfrentá-lo ou a ausência de força para nele remar, os fazem viver para sempre naquele punhado de terra.

    Texto repleto de metáforas e simbologias. As descrições e as imagens nos arrebatam e arrebentam, como as ondas de sempre dessa mulher-mar.

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