Histórias esquecidas

Reprodução da internet

Ana Karina Manson

Na juventude ela lia histórias das quais nem se lembra. Às vezes nem lembra que lia.

O gosto pela leitura é uma lembrança do tempo em que pensava que viveria de amor. Depois descobriu que amor não enche panela, não veste criança, não garante a água na torneira e nem a claridade da luz elétrica.

Pior ainda foi descobrir que os trocados para pagar esse tanto de coisa que descobriu necessária não poderiam vir do seu bolso:

Mulher casada não trabalha fora! – gritava alto a voz da sociedade.

E ela, calada que era, tocou trabalhar em casa mesmo, que era destino de mulher no entendimento de muitos.

Passou a cuidar dos filhos, do vermelhão do chão que combinava com o armário e com a geladeira. Cuidava da família toda, tanto que para a sogra tornou-se filha, a melhor delas.

Tanto cuidou das pessoas e das coisas, que foi se acostumando a não cuidar de si; às vezes até esquecia de existir.

Lembrava de cuidar das roupas de todos – filhos, marido, sogros, cunhados, sobrinhos – mas nunca se preocupava com algum vestido para se enfeitar e mostrar a beleza que nem sabia que tinha.

Da sogra, além de nora-filha, fora também uma enfermeira e cuidadora como nunca se viu! Tinha certa força em seus braços para carregar a senhora idosa em seus tempos finais, que ninguém entendia como poderia aguentar tal peso. Sabia dos remédios do corpo e da alma para cuidar da boa senhora, que procurou pelos seus olhos na despedida da casa que viveram tão linda história, quando se foi para sempre.

Seu cuidar não se limitou a quem partia, mas também a quem chegava. Houve um tempo que cuidava de crianças – dezesseis, entre filhos, sobrinhos, vizinhos, agregados.

Alguma mãe precisava deixar a criança em algum canto para trabalhar, lá ia procurar por ela, que não sabia dizer não, ficava com um, depois mais outro e assim se somavam as crianças a brincarem no quintal, a estudarem do jeito que ela, pseudo-pedagoga, botava para ler e escrever uns e brincar outros.

E também era uma boa nutricionista para os pequenos. Nunca faltava uma saudável beterraba no almoço, nem no suco, nem na gelatina de “uva”.

E em tempos que nem se falava de inclusão, ela bem que cuidava de crianças com alguma deficiência. Especialista que não era, não saberia dizer o nome e dar o laudo, mas sabia bem incluir, promover a convivência feliz entre eles.

Há também quem já a chamou de psicóloga, pelas tantas conversas que teve com casais implorando por palavras que cuidassem de seus corações, querendo encontrar o amor perdido em algum lugar da casa ou da vida.

E agora, aos seus 61 anos, ela recebe o direito à aposentadoria, não pelo tanto que trabalhou arduamente do lado de dentro da vida nessas tantas profissões que exerceu distraidamente – ora enfermeira, ora educadora, ora psicóloga, entre outras que nunca estiveram registradas em sua carteira profissional.

Ela foi ao longo desses anos de trabalho muito mais do que profissionais cheios de diplomas, reconhecimento e gravatas conseguem ser para tanta gente. Foi tantas profissões para tantos – de todas as idades, cores, religiões; e agora seu direito a aposentadoria é simplesmente pelo trabalho na faxina numa creche registrado em carteira, com contribuição devidamente recolhida.

 Há quem diga que mesmo lá, ela limpava os espaços para que todos se sentissem bem, mas o que os fazia mesmo sentir-se bem era o acolher das almas e corações que ela oferecia a cada um como um jeito natural de viver a vida. Mas isso também não tem registro em carteira e nem recolhe imposto para comprar os remédios na velhice. Quem sabe agora, aposentada, ela volte a ler e relembre as histórias esquecidas.

Ouça nossa voz: Histórias esquecidas

11 comentários em “Histórias esquecidas

  1. Lindo Ana, sempre penso nisso, nas várias facetas de ser mulher, do cuidar, do quase esquecer de si… tão poético quanto melancólico por ser mais comum que imaginamos… não esqueçamos de cuidar de quem nos cuida.

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  2. Dona Inês, eu já a admirava por todas as conversas que tive com a Ana, dificilmente ela deixa de citá-la em alguma, mas agora nessa narrativa tão bela me emociono e me indigno, que essas histórias esquecidas possam ser encontradas em algum lugar nessa nova etapa de sua vida, Dona Inês. Um viva a beleza dessas mulheres que tecem sorrateiramente o calor do sol e a umidade da chuva. Um viva a todas as mulheres vestidas de tempo!

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  3. Meu Deus, Karina. Me emocionei! Esta é mesmo nossa amada Inês. Enquanto lia, vi claramente sua mãe, e se me permite, eu a amo muito!
    Parabéns pela linda homenagem!!!

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  4. Muitas emoções. Inês foi aconchego e porto seguro. Orientação e puxão de orelhas não faltaram. Conhecimento e experiência deste mundão me ofereceu, sem cobrar um tostão apenas… Ah… Queria abraços e sorrisos! Parabéns Ana! Lindo relato de uma vida de lutas e vitórias.

    Curtido por 1 pessoa

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