Esperas

Ilustração Anna Cunha

a teia, não
morta
mas sensitiva, vivente

no
centro
a aranha espera.

Orides Fontela

por Celane Tomaz

Enquanto pacientemente cuidava da cicatrização da cirurgia do meu menor, pensava na escravidão da espera.
Todos esperam. Não há escolha, desde aguardar água a ser fervida para o café, até a passagem do ano em que ilusoriamente tudo mudará. Não há para onde fugir, desde aguardar a água do chuveiro esquentar, até esperar o verão para os reparos do lado de fora da casa. Esperar é verbo transitivo direto. Espera-se algo ou alguém, mas por tantas vezes é sem complemento. Pode ser verbo transitivo indireto àqueles que escolhem acreditar, ter esperança. Para outros só verbo – preso nos lábios, ação calada no peito.
Espera-se o nascimento, espera-se a morte. Espera-se por ambos, em qualquer ordem. Espera-se a quebra do silêncio ou a pausa da fala. Espera-se o cumprimento dos planos, espera-se o desejar do destino.
Espera-se pelas férias do descanso, pela safra das frutas vermelhas, pelo ônibus no ponto no fim do domingo. Espera-se a agonia cessar, a cicatrização da ferida, espera-se a nova pele. Espera-se a cura, a vacina chegar, a fome acabar, os trabalhadores dominarem as ruas. Espera-se por dias tranquilos, espera-se a revolução.
Nem sempre a espera é sinônimo de esperança, como costuma-se ouvir nos programas matinais ou lê-se nas devocionais de todos os dias. Por vezes, apenas se é indivíduo sujeito a ela, encarando-a numa sala de incertezas, aguardando, ansiando, espreitando pelas frestras das portas e janelas dessa vida.
Por vezes, espera-se o pior. Espera-se o fogo passar para se resgatar as sobras e lamentar a devastação ou espera-se a chuva cessar para se observar o infortúnio e a desolação. Esperar para ver de onde recomeçar. Esperar a neblina baixar para avistar pra onde se deve ir.
Espera-se a encomenda com entusiasmo – do livro, do utensílio necessário, do vestido da promoção, do móvel novo. Espera- se a chegada da lembrança de quem se ama numa data especial em dia comum. Ou espera-se que outras datas de dor passem logo. Espera-se o dia 30, o primeiro trimestre de uma gestação. Espera-se duas semanas, um mês. Espera-se às 10h e o encontro às 5h da tarde. Espera-se um amor, espera-se a superação daquele.
Espera-se um instante, um momento, a infinitude, a eternidade.
Espera-se uma vida inteira.
Uns esperam o começo, e outros o final de um ciclo. Ao mesmo tempo. E há a espera do tempo para lembrar e do tempo para esquecer. Espera-se o tempo. A espera é tempo. Tempo salvo, tempo perdido – intocável e invencível – deus e demônio de todas as esperas.

3 comentários em “Esperas

  1. Perfeito! A vida é uma eterna espera e esta, é um aprendizado que poucos exercem com perfeição! Celane, você arrasa sempre! Adorei! Parabéns pelo talento com as palavras!💜

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  2. Lindo jogo de antíteses… Fora o olhar sobre a palavra em todos os aspectos, amei esse trecho: “Esperar é verbo transitivo direto. Espera-se algo ou alguém, mas por tantas vezes é sem complemento. “

    Curtido por 1 pessoa

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