Vida de pobre II: Sacolinha de mercado

Lixo (maol/Creative Commons)

Carolina Tomoi-

Vida de mulher é aquela coisa… tanto trabalho desde que abre o olho que às vezes tenta fingir que está dormindo para enganar a si mesma que o dia de trabalho ainda não começou. Mas sua consciência é seu próprio relógio de ponto, patrão e cliente mais exigente. Lembrou que na segunda o caminhão da coleta passava bem cedo e se apressou. 

Como mal raiara o dia, havia aquele silêncio típico do horário: algumas passadas largas e apressadas de alguém indo ao trabalho, o despertador do vizinho com aquele ritmo alucinante, alguém usando o chuveiro, o bater de panelas e o aroma forte que faz as ruas trabalhadoras despertarem para mais um dia corrido. Pensou ter ouvido também o caminhão e engoliu o cheiro do café da vizinha e correu com a sacolinha do banheiro, ajuntou com o saquinho que ficara na lixeira da pia, pegou o sacão com os resíduos do fim-de-semana e saiu esbaforida. 

Se equilibrando para os sacos não pingarem nada nojento na sala, procurando as chaves, nunca em seu lugar, e prendendo a respiração para não sentir o fedor; conseguiu sair no portão, ainda de roupa de dormir (apesar que ninguém notava ou ela achava que não); equilibrando os sacos meio correndo pra não perder o caminhão, quando notou que ele não estava nem na esquina, respirou fundo, sentiu o fedor e se arrependeu de baixar a guarda, pendurou os sacos e entrou para cuidar do resto.

Repassou todas as tarefas de sua lista mental, acrescentou algumas depois de ter aberto os olhos e passado a vista pelo cesto de roupa suja e quarto das crianças. Foi lavando mãos e louças e enquanto repassava de memória as coisas da geladeira… o que fazer na semana… o que deixar pra esquentar no dia do trabalho. Só na quarta dava pra comprar batatas e bananas, no dia da promoção… Passando o café e cortando algumas frutas, foi escolhendo os melhores pedaços e ordenando-os nos potinhos… Na volta do trabalho pegaria dois ônibus, assim aproveitava a parada e passava naquele mercado… tomara que tenha batata, por 0,99… assim dava pra comprar uns três quilos… todo mundo gosta da batata e dá pra fazer de muitos jeitos… as crianças gostam. Era um peso ter que pegar ônibus com aquelas sacolinhas, mas fazer o quê? por 0,99 o quilo? Tomou a primeira xícara do café espesso, escuro e sem afeto.

Quarta também é dia de coleta, só que o caminhão passava mais tarde … aquela história de não ter mais sacolinha no mercado vai sobrar… por que será tanta implicância com as danadas das sacolinhas… servem pra tanta coisa… aqui não vejo as sacolinhas jogadas. Sacolinhas carregam muita coisa… mas principalmente lixo. Carregava, a caminho do ponto, uma sacolinha de papel dourado, com alças de tecido, era de um brilho quando batia o sol. Encontrara junto a pilha de resíduos recicláveis do apartamento da sexta-feira. Era a medida de sua marmita e do outro com as frutas que toda manhã porcionava. Não deixava faltar, achava importante, não comprava balas e pirulitos, mas conhecia todas as promoções dos mercados da semana e transitava nos coletivos nos caminhos com suas sacolinhas garantindo a saúde de seus rebentos. Receberia o pagamento ou apenas o dinheiro da condução? Precisava das bananas também, senão só na sexta…

Dessa vez, voltara bem leve pra casa. Não valeu a pena o tempo na fila do caixa, ter descido e esperado outro ônibus, ia refazendo suas listas e suas contas: 0,99 = 1kg batata; 1,99 = sacola permanente. Semana que vem compraria os sacos de lixo.

Ouça nossa voz: Vida de pobre II: Sacolinha de mercado

6 comentários em “Vida de pobre II: Sacolinha de mercado

  1. Esses malabares e soluções que aprendemos desde cedo a gerir. Vida de pobre é uma ciência a parte, merece estudo. Mas parte basicamente de um princípio de
    supressão do ego para sobrevivência de um coletivo. Milagres! Da pra escrever uma saga! Bjs amor. Lete

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  2. Cada imagem, cada ação descrita com a mestria, traduzindo a vida de tantas de nós mulheres, que carregamos tantas sacolas pesadas de responsabilidade, de alimento, de lixos…

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