Quando crescer quero ser colibri

Arlete Mendes: Jacarandá-mimoso em zoom no azul

Arlete Mendes-

Colibri faceiro beijou quase todas as roxinhas flores do jacarandá, pequenos sinos a badalar sobre o azul imenso daquela manhã, a pequena vibrando com a chegada inesperada, presencia a queda, lá do alto, de um dos sinos mais vistosos.

— E agora, mãe, o beija-flor matou a flor, não é que não pode arrancar as florzinhas, pois eu, vi, ele matou!

Ela tinha sugerido o café ao ar livre, novidadeira que é, escolheu ali, ao pé do jacarandá, tão mimoso quanto ela, fui até a cozinha cortar um melão, quando voltei, havia mudado o semblante, de festiva a reticente. De nada adiantou minha explicação científica sobre pólen, polinização, simbiose.

Fez romper o trinado de um bem-te-vi com outra pergunta. Se eu morresse que seria dela. Se todo mundo morresse e ficasse sozinha. Abriu um beiço de choro, tão radiante em seus cachos, puro pulsar de vida, que conversa mais descabida numa manhã  terna, eterna, a abracei!

— Pois não se preocupe, mãe nunca morre, fica encantada! — Salva pelo Guima, pensei, há que se achar um fim útil à literatura.

— Como assim, mãe, vai pro mundo da magia?

— Se transforma em pássaro, peixe, flor…

– Ah, flor morre muito fácil, flor não.

— Não se preocupe, a mamãe quer ser colibri quando crescer.

— Mas o colibri a gente pode pegar na mão?

— Não, filha, ele não se dá na mão de ninguém, porque é livre. Não se preocupe, quando eu chegar perto, você vai saber que sou eu.

— Mãe, mas você não pode escolher ser gente outra vez e ser minha mãe de novo?

— Ô, amor, muitos até acreditam que podem, mas a mamãe quer experimentar ser outra coisa, porque ser gente é bem difícil.

— Não, mãe, escolhe ser gente e você vem cuidar de mim para sempre.

Nesta conversa eu entendi o apelo da crença na reencarnação, diante de um pedido deste, qualquer sonho entre flores e beijos fica por demais pequeno.

Ouça na voz da autora: Quando crescer quero ser colibri

Publicado por arlete mendes

escrevinhadeira, educadora, mãe de meninos e meninas, amante da música, da literatura, da vida!

16 comentários em “Quando crescer quero ser colibri

      1. Alice não está no país das maravilhas. Ela encarnou a essência da maravilha. Sente o mundo como quem é o próprio mundo. Sente-se à vontade com os sinais e estímulos dos elementos da natureza. Está integrada. Perguntas e incômodos. Deduções e elaborações q partem de suas preocupações com esse interagir simbiótico.
        Simbolicamente, ela vibra na órbita da proteção, e no amor da mãe. Quer proteger. Não quer perder a construção interna q fez da mãe. Quer a mãe forte e eterna. O q significa, penso eu, uma passagem. Ela quer sustentação. A flor é frágil. O colibri voa e não se deixa encantar pelo claustro. Entretanto, pode pousar na mão.
        Voar é a liberdade de sair do ninho. Alice quer a segurança do ninho. E não quer a mãe voe.
        Não há ciência e biologia q dê conta disso. As redes de relações e associações q se estabelecem numa criança com as viagens da Alice são múltiplas.
        Ela quer sair de casa. Tomar o café debaixo das flores roxas do Jacarandá. Entretanto, quer a manutenção e a permanência da proteção.
        Ela está se preparando pra voar. Kkkkkkkkkkkkk.
        Que menininha doida!
        De geração tao recente, mas com uma elasticidade mental q viaja ao desconhecido querendo se conhecer.
        Devemos livrar nossos filhos da lógica.
        Kkkkkkkkkkkkk.
        Estimular os seus devaneios é o q nos cabe.
        Tentei fazer isso com os meus. Não sei se consegui.
        Nosso influenciar é limitado.
        Kkkkkkkkkkkkk.
        E isso é massa!
        Não sei se fui claro.
        Essa, tb, não era a minha intenção.
        No início era o caos. E caos permanece em mim como “início, meio e fim.”
        Kkkkkkkkkkkkk

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      2. Suas leituras me encantam Clayton, concordo e fazemos um esforço grande para que o pensamento mágico conviva harmoniosamente com o pensamento lógico, sonho com um mundo sem cisões, quem sabe esses pequenos não encontrem uma fresta em que caiba todas as confluências. Privilégio é aprender com eles diariamente. Te adoro❤️

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  1. Cercadas de natureza, um diálogo verdejante – esperançoso. Lidar com a ausência antes de vivê-la. Ser livre em seus pensamentos, numa manhã despretensiosa de café, nas asas de um colibri. Eu só posso ver duas pássaras e um céu em liberdade que se orna num voo juntas.

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