Perdoai

Ilustração Anna Cunha

Celane Tomaz

De tanto me pensar – quando há tempo – é que a culpa me acolhe nos braços e me aperta com suas potentes mãos. Encolho-me dentro dela como se compreendesse e aceitasse que ela nasceu comigo quando menina, mãe e mulher.


Os fios desordenados do cabelo, a roupa velha e qualquer, as unhas por fazer – a vaidade é já uma desconhecida – tarefas em espera, tudo a cumprir. A desordem materializada e visível de um estado de espírito e rotina da minha e de tantas vidas nos poucos metros quadrados, nos andares dos prédios, nas casas distantes e desarrumadas. Cada um com sua sentença, à mercê da própria condenação.


Cubro meia face com a mão ainda quente do sono inconsciente e fecho os olhos na despedida de um corpo inerte e momentaneamente indiferente, entregue ao descanso na efêmera paz. Um ar tão puro invade os pulmões num suspiro cansado, de olhos por ora fechados, quase irrespirável.


Os filhos acordam, a casa desperta desajeitada, o trabalho se impõe e o dia é breve. Uma luta diária contra o tempo, contraditoriamente vivido num excesso e numa escassez – imutável e invencível – aos duros golpes dessa múltipla-mulher-fortaleza, mas que não deixa de ser uma mortal.


Uma mulher culpada. Julgada por suas outras faces, condenada por suas cobranças, presa por suas próprias e temidas leis. Uma mulher que escolhe viver sua culpa na mudez de todos os dias, tornando-a persona – uma companhia inseparável na cela escura e fria da solitária, sem que haja como (re)correr.


Muito a cumprir, quase nada bem feito. Tantos papeis a realizar e as atuações são imperfeitas.


No fundo da cela, alcanço em consciência – apenas pensamento – que a redenção está num tal de autoperdão. E enquanto não o exerço, cometo alguns delitos, gritos silenciosos de misericórdia, subversivos atos de dentro da prisão quase perpétua: deixar para amanhã, depositar a esperança no depois. Perder tempo, perder-se no tempo, esconder-me dele em algum canto da casa. Afundar-me em profundos e longínquos pensamentos, onde é possível ser o que se quer ser. Evitar a ação de um verbo, conjugar apenas o “querer”, sem poder. Permitir-se à pausa de um banho demorado no meio da tarde, deixando a água escorrer entre entrega e respiro embaixo d’água. Cometer a afronta de marcar os lábios com um batom vermelho-vivo, sem que se faça um passeio ou receba visitas. Deixar pessoas por falar, faltar com os ouvidos, deixar as mãos livres. Viver um dia de ignorância diante das barbáries do mundo. Escrever.


Na vã tentativa de me dar perdão, dobro os meus joelhos a mim e faço a confissão dos meus pecados diários, das regras quebradas, das tarefas descumpridas, mesmo que esteja prestes a ser entregue à minha fogueira, aos silenciosos golpes dos meus açoites de autoflagelação.


Dispo-me inteira em des-culpa. E penso: “Perdoai, mesmo que ela saiba o que faz.”

4 comentários em “Perdoai

  1. Que texto, Celane! Me vi como se a minhas faces estivessem refletidas em um espelho, que reflete não só as minhas, mas as faces de tantas mulheres desse mundão. Agradecida!

    Curtir

Deixe uma resposta para arlete mendes Cancelar resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: