Águas

por Ana Karina Manson

O mesmo caminho que havia feito há vinte anos.

Era o aniversário dele e como o destino encontra maneiras inusitadas de vencer o tempo e fazer um encontro entre passado e presente, ela estava lá no lugar onde se conheceram, onde caminharam tantas vezes enamorados, apaixonados. Acreditavam que a vida inteira estava naquele momento. E estava.

Hoje, enquanto ela caminhava de mãos soltas pensava em quanto está ainda enlaçada a ele, mesmo tão distante e tão longe.

Como era seu aniversário (o que ela nunca esqueceu, jamais esqueceria) já acordou e se dispôs a ouvir Caetano, o que ele cantava para ela em outros tempos. Era como se um vento pudesse soprar e levar para ele a sensação de que ela se lembrava dele, homenageava-o, desejava felicidades.

Mas não desejava felicidades como costumeiramente se faz quando há aniversários. Desejava, na verdade, a felicidade que viveram em outro tempo. A felicidade do encontro, da poesia, da arte, do vinho, da música, do cinema e, sobretudo, de suas almas e de seus corpos.

Talvez tenham passado juntos as tardes mais felizes de suas vidas. Mas naquele tempo não sabiam. Não se sabiam. Apenas viviam e por isso foram tão felizes.

Em seus encontros, casuais ou não, falavam de poesia de modo que perdiam a noção do quanto ela estava fora e dentro deles. Viviam-na.

Por quantas vezes seus corpos se enlaçaram como numa rima perfeita. O entrelaçado de suas pernas, que prazerosamente viam no espelho. Espelhava o amor.

O encontro de seus corpos era a mais bela construção poética que se poderia imaginar. Era música que se dança, escuta-se, bebe-se, vive-se.

Por quantas vezes os beijos em suas costas eram como tatuar um caminho ao qual nunca deixaria de trilhar. Era o para sempre.

Era sim, essa felicidade que desejava.  A felicidade que não é sabida a não ser quando já não é mais, quando é nostalgia.

Naquele tempo o encontro era como a cachoeira que invade o rio com sua intensidade, sua força, sua certeza, sua busca e depois deslizam juntos por caminhos diversos. Ora serpenteados, ora como raios de sol. Rios.

Houve uma vez em que ele dissera a ela que ele era como a cachoeira e ela, rio. Chegou a desenhar num desses guardanapos de lanchonete. Chegariam ao mesmo lugar, mas enquanto ela deslizaria no caminho que a água traçara, vivendo cada encontro com as pedras do trajeto; ele, num raio, chegaria ao final.

Quando viu o desenho ela concordou não só com a explicação dele, mas com a interpretação dela. Ele era mesmo a cachoeira que alimentava suas águas. Fazia enchente em seu rio.

Porém, ao lembrar dele, agora em seu aniversário, pensava em como ela – rio – não conseguia se imaginar cachoeira. Seria pouco chegar ao final sem passar por cada pedra, cada galho, cada folha a flutuar. Tudo isso a compusera ao longo desses anos.

E neste momento notou que já não havia o encontro das águas. O passado e o presente eram como águas do mar e do rio que se tocam. Encontram-se, mas não se misturam. Era assim que ele estava hoje em sua vida. E as águas seguiam seu curso. Ela era mar.

15 comentários em “Águas

  1. Meu Deus Ana, me fez chorar, parece q escrevendo sobre mim, um dia também serei o mar, mais hj ainda fico sentada no colo do tempo torcendo pra ele retroceder e voltadas noites em q os corpos eram poesia ! Gratidão pela escrita

    Curtir

  2. Meu Deus Ana, me fez chorar, parece q escrevendo sobre mim, um dia também serei o mar, mais hj ainda fico sentada no colo do tempo torcendo pra ele retroceder e voltadas noites em q os corpos eram poesia ! Gratidão pelapoesian

    Curtido por 1 pessoa

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: