retrato de domingo

Sasha Podgurska

por Celane Tomaz

dos dias que são retratos do ser. das sensações e percepções que nos traduzem.

o domingo acordou assim, como sempre, no silêncio estendido. um despertar demorado, um cansaço invisível. outro tempo incontável ou um viver sem ele, que não nos obriga neste agora a uma razão ou um sentido. se respira, apenas. e nele um tanto de pensar, um tanto de sentir que amanhã terão outra forma, já serão outros – os mesmos, mas com a licença para ‘ser’ abolida neste dia. a própria espera pelo amanhã espera.
as máquinas não trabalham, as vozes apressadas nas ruas se calam, até o cheiro do café se atrasa. ouve-se, inquieto e indiferente, o monótono e solitário som dos latidos dos cães, a prazerosa confusão dos pássaros.
o peso do relógio tira folga aos domingos. e o corpo vaga na horizontal da cama, enquanto o sol já é vertical.
venho de uma madrugada incompleta nas horas. o sono pôde esperar durante a vida que se vive num paralelo impronunciável, numa camada inacessível. anseio a vida pelo seu lado avesso. inquieta é a alma. indiscretos os pensamentos. subversivo o silêncio – enquanto o dia lento se prepara para ser.
pertencer a um amanhecer sem seu próprio julgamento e cobrança, sem o peso dos porquês, é vagarosamente sentir o prazer de tomar uma xícara de liberdade, mesmo que desfrutada entre as suas paredes.
as imposições dormem com as nuvens. o que é manhã, o que é tarde, o que é noite? apenas cortes da vida em tiras, na tentativa de esquematizar o que é viver.
a digestão do domingo. mastiga-se e engole-se a seco a semana e se afrouxa as calças no domingo. abre-se os botões, desliza-se na cadeira. abre-se a camisa, mostra-se o peito. estanca-se o sangue das feridas, coloca-lhes suturas efêmeras.
goza-se o descanso desobediente, contrariando o sétimo dia. a calma em poder exercer certa rebeldia, mesmo que em pensamento. do repouso do mundo criado à pausa do incesante trabalho de o destruir com as próprias mãos.
o dia do Senhor. até dele vem o silêncio.
os problemas estão estáticos, mas ainda o são para serem resolvidos. as pendências e seus cordões desafrouxam os nós, mas ainda o são para serem desatados.
amanhã é segunda. o dia em que ilusioriamente a vida se ajusta. todos os dias deveriam ser domingos em nós. apesar das culpas, apesar da solidão.

por hoje, apenas por hoje, entrego ao dia do descanso e à momentânea paz a ânsia da vida recortada ao alívio e à tortura deleitosamente calada do dia primeiro.

Ouça “retrato de domingo”

9 comentários em “retrato de domingo

  1. Amei… Essa languidão, esse cansaço culpado, a louça suja na pia e o lixo pra tirar só segunda… “a própria espera pelo amanhã espera”… São meus Domingos também!

    Curtido por 1 pessoa

    1. ” O que é manhã ,
      o que é tarde ,o que é noite ? Apenas cortes da vida em tiras, na tentativa de esquematizar o que é viver ” … Lindo , perfeito ! Tudo que vc escreve dá um calorzinho no coração ,uma sensação de ternura, é como sentar pra bater um papo com um amigo querido numa tarde ensolarada ! Sua poesia acolhe !

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  2. Particularmente sofro nas manhãs de domingo, pela falsa ilusão de descanso que me traz. Costumo passar mais tempo cozinhando, tento limpar algo que não deu durante a semana, pq sábado já foi tomado por outros trabalhos. Gosto apenas da hora do almoço, como na música de Belchior, depois do almoço bate uma tristeza e a certeza que nunca darei conta de todas as demandas que chegam a galope. Daí escolhemos uma comédia, bem besta,e rimos, só esse riso em conjunto me espanta as dores desse eterno recomeçar…

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