Apanhadora de sonhos

Henri Rousseau- A cigana adormecida

Arlete Mendes-

Sei que tive um sonho. Sonhei. Traços da narrativa quase se esboçam, mas rapidamente se evaporam. Esquecer e lembrar, esse jogo recorrente da memória me fragiliza. O que fica é que sei que sonhei e os sonhos revelam, dão claridade e forma à obscuridade imposta nas verdades, brincam de esconder-revelar o que tento lembrar-esquecer.

Esquecer é enevoar-se, fábrica de fumaça a baforar mentiras. Lembrar é irradiar-se, dissolver as brumas e ensolarar o dia.

O ato de parir uma verdade implica em que outras milhares deixem de existir. Poucas verdades podem ser geradas num mesmo ventre. É por isto que almejo as disformes, quase um engodo. A verdade daqueles que, nesse jogo de forças, foram sucumbidos, vilipendiados. Ovos gorados. A mim só interessa o choro dos natimortos. Quero ouvir a voz embargada de quem nunca pode existir.

Confesso que dói carregar algumas verdades latentes e outras mil silenciadas. Que verdades trariam à tona meus irmãos que nunca nasceram? Que verdades me ensinariam os filhos que nunca tive? Que verdades nos gritam os mortos de suas covas?

 A memória é renda translúcida de tecer os dias. Penso que até o aquietar da noite o sonho que tive ganhará força e irromperá as barreiras do real, que o repreendem. Quiçá consiga, com sua força, dar vazão a tudo o que eu poderia ter sido, vencedora ou vencida, pouco importa, permitindo-me perder-encontrar livremente no labirinto de símbolos pelo qual navego.

Neste navegar quero apenas chegar num tempo em possa olhar fixamente nos olhos dos meus semelhantes e verbalizar o que os pequenos raios de palavras frestaram em minha pobre consciência. Palavras soltas, sem o crivo cartesiano da razão. Neste dia poderei mostrar na palma de minha mão o primeiro átomo a gestar o cosmo.

-É por isto que me renegas? O que temes? Venho em paz. Afirmo, venho em paz. No mais que posso eu contra ti, se sou apenas uma mulher de sonhos fugidios? Escute, sou teu igual, caminhamos sob a mesma terra, comemos da mesma fruta, por que insistes em me expulsar do paraíso, do nosso único paraíso possível: a vida?

E por esta ser uma verdade intraduzível responderás com palavras difusas, confusas, desconexas, enquanto prestarei atenção no mistério da aranha que tece uma fulgurosa teia em seu infinito silêncio. Nada direi, tocarei de leve o dorso de tua mão e neste instante recuperarei todos os sonhos esquecidos.

Ouça nossa voz: Apanhadora de sonhos

Publicado por arlete mendes

escrevinhadeira, educadora, mãe de meninos e meninas, amante da música, da literatura, da vida!

7 comentários em “Apanhadora de sonhos

  1. Me faz pensar em como eu tenho tido conflitos com meus sonhos ultimamente. Não sei se tem a ver com o inconsciente coletivo devido à vibe atual do planeta ou se são os meus conflitos internos. Deve ser tudo junto e misturado. Tô tentando entrar em paz com eles😊
    Adorei, Arlete😘

    Celina

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  2. Seu texto me faz pensar nos conflitos que tenho tido com meus sonhos ultimamente.
    Não sei se tem a ver com à vibe do planeta ou só com minhas neuras mesmo. Deve ser os dois juntos e misturado! Adorei! Como sempre vc abrindo portas pra ampliar as nossas reflexões. Beijao😘

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