A menina que lê

Figura na janela – Salvador Dali

por Ana Karina Manson

“Todo dia ele faz tudo sempre igual”: sobe a Estrada do Campo Limpo com seu livro nas mãos sem tirar os olhos das palavras que balançam no ritmo do seu caminhar.

“Todo dia ela faz tudo sempre igual”: desce a Estrada do Campo Limpo ansiosa em vê-lo mais ainda, em ver as histórias que ela imagina que ele lê.

Ela com seis anos lê nas cores das capas, das letras, das páginas os assuntos que o hipnotizam.

Ora a capa é vermelha.

― Deve ser uma história de sangue… ou de Papai Noel! – diz a menina.

― Será um mistério? – pergunta curiosa ao ver páginas pretas com letras brancas.

Todos os dias a menina lê na imagem do rapaz as histórias que imagina existirem nos livros, nas mentes, no mundo.

Já prevê que tantas das nossas histórias são capítulos de livros alheios. E quanto há em nossos livros de histórias escritas por outras mãos com tinta permanente – ficam para sempre.

Mas teve um dia que choveu e parecia que o rapaz não viria.

Ele veio.

Mãos vazias.

Certamente o livro molharia. Era preciso protegê-lo. Às vezes é preciso proteger nossas histórias para não virarem papel machê, para não esfarelarem como papel molhado. É preciso guardar a mais simples história da infância, a mais ardente da adolescência, a mais desafiadora da vida adulta para que o tempo não leve, a chuva não molhe, a memória não esqueça.

E, diariamente, por algum tempo, a menina olhou aquele personagem de sua história real e pensava como seria se lhe dissesse que a leitura dele a fazia ler possibilidades?

Mas seria um risco, um caminho sem volta, pois conhecer o criador involuntário desse imaginar poderia simplesmente desencantar, fazer a magia se perder se houvesse uma palavra fora do lugar.

Era melhor o silêncio.

Era melhor imaginar. Como tantas vezes na vida é melhor a possibilidade do que o desencanto. Ela alimenta, faz caminhar, faz virar as páginas, imaginar, escrever. Ele mata. E a menina escolheu viver.

8 comentários em “A menina que lê

  1. Essa menina me fez também viajar, imaginar e fantasiar nessa história. É também, um convite para ressignificarmos nossas próprias historias. Que gostoso ler e ouvir suas produções, Ana Karina

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      1. Como sempre, o fato de esperar pelos seus textos, já me leva a imaginar, deixando de lado o desencanto. Coragem para esses dias… Sim, proteger nossa história!

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  2. A leitura de mundo transcende a leitura do código, Paulo Freire teria ficado feliz se tivesse lido essa crônica. Que opera em níveis de leitura profundos, do sujeito e objeto que passam pela rua e chega até dentro de nós, em nossos próprios enredos. Muito belo, Ana!

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