Sótão

fonte: https://politorno.com.br/blog/post/tapecaria-na-parede, acesso: 23ago20.

Thata Alves –

Havia um tapete no sótão, há um tempo com pó e deixado de lado, apesar de estar obsoleto sabia que ali no canto que se mantinha não havia risco de rasgar, ou sofrer qualquer dano como esses de acidentes com cacos de taças de vinho, que para além de alterar sua cor e textura, mesmo com várias sessões de vap, quedas como essas sempre deixam resquícios.

A família Targino decide se mudar da casa, eis que dessa vez sairiam do aluguel e iam de encontro à casa própria, tudo devidamente embrulhado, encaixotado e nomeado com caneta piloto preta. O entusiasmo era tamanho que gostariam de toda a mobília renovada, contrataram arquitetos e designers de interiores para decoração do novo lar. Visitaram o sótão e havia móveis que não queriam mais, também estava lá o tapete que outrora foi também responsável do mesmo entusiasmo quando se mudaram para ali a primeira vez.  Por ser objeto de outras emoções, de um outro casamento, Aysha o deixa ali, como se fosse um presente para o próximo inquilino.

Mudança procede e eis que caminhos abertos estão. A casa que recebera placa de locação no jardim e só após 24 meses recebe então nova família ali, o achado não acontece por via de imobiliárias, mas sim por um erro do GPS da Uber, quando um percurso errado, por falta de atualização a passageira vê a placa de aluga-se e decide ligar para imobiliária, a casa parecia assombrada devido há tanto tempo sem habitação. E é isso que desperta o interesse em Kalifa, que quer dizer brilhando no Quênia. e também a árvore de frente a casa, ela imagina que dá pra dar vida aquilo tudo. No dia seguinte liga pra imobiliária e tenta locação de sua casa, havia dinheiro em sua conta, pois acabara de chegar de um circuito de poesia em Luanda onde seus livros tinham sido homenageados. O que dificulta o caminho são as burocracias da empresa imobilista apesar do sucesso das vendas dos livros, isso não lhe garante ser a própria fiadora.

Eis que começa uma jornada atrás do mesmo… Dia e noite a ansiedade a perturbava com medo de não encontrar o tal e a casa ser o lar de outra família, incessantemente ela busca alguém que ainda tenha a palavra com o maior do acordos, antes dos papéis e contratos. Um amigo editor que ajudara em seu primeiro livro cede a moça o nome, e eis que a chave da casa chega. Ida ao cartório, toda vez que ela entrava num desse sabia que ou seria para contratos tais como da casa, ou então testemunha de casamento de amigas. Quando acende as  luzes da casa, depara-se com baratas, aranhas e suas teias. Compreende que o lar precisa de uma lavagem, lavagem essa com banho de folhas, compra velas para iluminar caminhos e começa a explorar a residência, na última porta celebra um quintal enorme com chão de terra, respira fundo, chora e agradece! 

Volta pro interior da casa e vê uma porta que lhe dá o convite de acessar o sótão, não achava que casa com sótão completavam seu País, sempre viu isso nos filmes estrangeiros. Quinquilharias várias ali e apesar da pouca idade a moça gostava de artigos de barro e coisas fora de sua época, algumas ficara para si, outras doara. O tapete, este teve dúvidas gostava de pisar com pés no chão e saberia que mantê-lo em algum cômodo da casa diminuiria a fricção da sua sola dos pés com a terra. Não conseguiu jogá-lo fora, ele meio que tinha uma energia de tapete do Aladim e de imediato não saber o que fazer com tal, mantém ele no canto obsoleto que o mesmo se acostumaram. 

Decide fazer um jantar a luz de velas e convida seu companheiro para conhecer a casa, claro que ainda nada no lugar, além da lavagem com as folhas que já continham no quintal, eis que manjericão reinava… Ao entrar na casa, Amir, que significa príncipe na Uganda ao finalizar o jantar sabe que sua companheira e exímia na cozinha, decide conhecer a casa, os dois como exploradores, brincam com as teias ali, ele diz a ela que uma feiticeira como ela só poderia residir lugar como de agora. Direito a vassoura de bruxa e tudo! Chegando ao sótão, Amir também surpreende-se pela casa ter um, e como um bom explorador vai olhar. Considera os objetos separados por Kalifa e pergunta pelo tapete. Kalifa diz que gosta mais que acha que não combina com as cores pensadas para casa, porém sentiu de não jogá-lo fora. Amir diz:

– Isso não é um tapete. Isso é obra de arte!!! – Kalifa nada entendeu, frequenta exposições , teatros e museus e lá bem sabe reconhecer uma obra de arte, quando posta. Então Amor à surpreende e dizendo:

– Este não é pro chão, esse é para quadro e sem o vidro da moldura, vamos lavar ele e amanhã saio mais cedo do escritório e o faço. Deitam-se na eni e aguardam o dia seguinte, Kalifa de olhos abertos contemplando as estrelas que dava pra ver de seu quarto, junto a árvore primeira que protagoniza a paixão pela casa. Quando Kalifa acorda, Amor já havia ido ao serviço, entende que precisa agilizar as coisas na casa , e ao espreguiçar vê um agrado de seu amor no móvel ao lado da cabeceira, a cumbuca de água cheia , uma margarida extraída do quintal com pedido de licença a mata que era, e um bilhete perguntando a ela qual a cor da moldura… Ela sorri ao ler o bilhete, termina de espreguiçar, olha pela sua janela e agora vê o dia, desejando a ela que seja bom.

São 15h e Amir chega, todo entusiasmado de pôr a mão na massa, nesse caso no tapete. Lavaram o tapete juntos e nessa de esfregar com sabão de coco, eles brincam apaixonados, ela joga espumas nele, ele a molha com a mangueira , e seus risos eram como as bolhas de sabão, brilhantes! Estendem o tapete no portão para água escoar , enquanto Amir tira a medida da moldura, Kalifa faz o almoço, todo empenho gera fome e eis que a moça providencia o cardápio. Quando o cheiro reina nas narinas de Amir, ele grita:

– Tá pronto pode descer! – Kalifa deixa o avental na mesa, desce correndo as escadas e quando vê! O tapete de fato era obra de arte. E tanto o era que ficou na sala, ele preenchia toda a parece de entrada e tão veludo era que Kalifa fez carinhos ao mesmo tempo que chorava pela formosura da beleza que não se viu, outrora. Amir de mãos no bolso se orgulha de fazer valer nome de Kalifa e propiciar a ela o sorriso brilhante da luz que emana dela. Eis que esse conto não é sobre o casal soberano, migrado dos reinos africanos, mas sim da alegria do tapete, de não se imaginar outra coisa, a não ser que estava posto. Acostumara-se a ser pisado, nunca pensou receber carinhos, e quando vinham ele não sabia reagir, calado ficava assim como ficava quando obsoleto, porém o seu calar o mantinha em pé numa parede, com a imponência de quem se ergue, é erguido e assim o é pelo amor.

2 comentários em “Sótão

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