A santíssima Trindade

Portal do Professor - ARTE CONTEMPORÂNEA: A INSTALAÇÃO – nova ...
ANINHA DUARTE, Analgesias Votivas, 2003, Instalação, Uberlândia – Brasil.

Arlete Mendes-

Quem tem a alma agreste, plantada em solo de solidão, e ainda assim encontra sob a Terra, amigos, sabe o quanto são valorosos.

Nunca tive um amigo que gostasse de mim, assim, logo de cara. Olhavam para meus espinhos, meu ensimesmamento, que me conferiam uma existência muito envelhecida para a juventude, e se desagradavam. Isto foi uma constante. Meu gosto sempre foi muito diferente, de vestimenta, de alimentos até o que ouvia, lia e conversava, não era para agregar. Estranha no ninho.

Lembro-me de um dia em que cheguei ao serviço, estava muito feliz com minha aquisição, mostrei meu vestido novo. Cida e Jah riram de mim.  Eu achei um ultraje. Como assim? Havia custado caro, estava me sentindo tão elegante. Só hoje me dou conta de que a roupa era muito austera para uma criança de quinze anos. Aquela cena do vestido virou uma piada interna por muitos anos. Até hoje, confesso.

Era aniversário da Bebete, fomos até o ‘shopping’, para nós a maior revolução era comprarmos num lugar em que nossos pais nunca haviam sequer pisado. Éramos abusados. Naquele momento esquecíamos que ganhávamos meio salário mínimo, como estagiários na Caixa Econômica, que caminhávamos quilômetros, até os limites entre Embu e São Paulo, todos os dias, para economizar na condução, (aliás caminhávamos a cidade inteira a pé) e, que compartilhávamos marmitas.

Entramos na rouparia mais cara e moderna que havia na década de 90, deixamos ali em duas peças o salário de três meses de trabalho. Fizeram-me escolher a roupa mais ousada, que eu jamais teria a audácia de comprar se estivesse sozinha.

Amigos são assim, esses seres que te impelem para fora de si mesmo. Diria Jung que estavam equilibrando meu exagerado tipo introvertido. E assim o fizeram pela vida afora. Minha balança entre meu mundo interno, onírico, e o mundo externo, por vezes bonito, muitas vezes dolorido.

Ao chegar em casa, escondi o pacote de minha mãe, pois o salário tinha rumo certo, e eu o havia desviado, me tranquei no quarto, vesti a roupa e tive vontade de correr até o ‘shopping’ para pegar meu dinheiro de volta. Pecadora. Que horror, peitos quase nus e a barriga de fora. Eu não teria coragem de vestir.

 No dia seguinte comentei isto com o Jah e a Cida, eles não deixaram, diziam que este era meu desafio. Mostrar o corpo. Mas acabávamos de sair da década de 80, as roupas folgadas, calças ‘bags’, cintura alta, camisões soltos, tudo muito neon, ainda eram a moda na nossa periferia, porque lá o tempo e a moda eram anacrônicos. Havia outra lógica em jogo…

Muito do que vestíamos eram doações das patroas de nossas mães, ou de nossos tios e tias, que ao ingressarem no mundo do trabalho tinham de investir parte significativa dos salários em vestimenta. Apagar o máximo possível as marcas da pobreza. Os pés de barro deveriam estar limpos, sem mácula.

Nas entrevistas os empregadores observavam basicamente o quanto se conseguia controlar dos impulsos periféricos de espontaneidade e expressividade, o quanto se conseguia se enquadrar num modelo contido e sóbrio. O uso do português padrão e o traje esporte fino eram os crivos.

Ainda que os salários fossem miseráveis, a miséria deveria ser, a um alto custo, enfeitada. Os risos, as falas em voz alta, as expressões locais e toda nossa ginga que ficassem da ponte para lá. Tínhamos de estar aptos. Era o que dizia o formulário médico que tínhamos de entregar nos Recursos Humanos. Desumanos? Corpos domesticados, padronizados dentro da estética da falsa moral burguesa. 

O fato era que as empresas impunham expressamente um padrão de vestimenta,  então parte daquele investimento tinha de escoar de alguma forma para dentro do capital das famílias, eram nossas heranças. Ganhávamos as roupas que haviam ficado muito batida nos empregos, porque não se podia usar roupas repetidas ou surradas, ainda assim elas eram nossa alegria.

Daí eu ganhar involuntariamente um ar austero foi um caminho natural. Minhas roupas eram basicamente as de minha tia, recepcionista, depois secretária. Eu adolescente com ares de secretária.  Isto manteve muita gente longe de mim, levei a pecha de metida por muitos anos. Se já era introvertida, vestida daquele jeito, me tornava alguém muito diferente do meu grupo. Estranha no ninho, fui chamada assim por muito tempo.  Haroldo me deu esse apelido. Revelador de mim.

Aliás, nunca me senti pertencente a grupos, éramos nós três, eu e minhas irmãs, e só, o máximo de socialização que eu conseguia. Com o passar do tempo isto mudou, virei uma pessoa  de bando, gosto tanto de aglomerar que constituí uma família grande, com muitos agregados. Graças a esses três bandoleiros, Jah, Roberta e Cida, aprendi a gostar de gente.

Chegada o dia da festa, atravessamos a cidade em muitas conduções. O trajeto desconhecido, para quase todos. ‘Overnight’. Alguém arranjou uma máquina e pela primeira vez tiramos muitas fotos, inclusive dentro do coletivo.

Aliás, a festa maior foi no coletivo, realmente causamos vestidos daquele jeito. Foi um buchicho só. Gostei de provocar mal-estar e estranhamento às pessoas ditas de bem, era melhor que eu senti-lo.  Estava bem comigo mesma. Foi o meu primeiro foda-se, que gritei com meu peito e barriga à amostra.

Tive a infeliz ideia de ir com a blusinha ‘femme fatale’ para o trabalho, foi questão de minutos para minha gerente me chamar no cantinho do telex e me dar a maior bronca. Eu não tinha filtro. Era assim um oito ou oitenta.

Havia sido secretária por tanto tempo, pela primeira vez estava me permitindo ser adolescente. Para o espírito do capital, isto foi de muito mau gosto. Doei a blusa, sim, nada se perde em nossas naturezas periféricas, ou se doa ou se reforma, como não havia panos para encompridar a blusinha, tive de passá-la adiante, não me lembro para quem.

Meu jeans de cintura baixa? Ah! Deste não abri mão. Era ‘delavé’, bem justo, com caimento em boca de sino discreta. Corte perfeito. Esse virou motivo de cobiça de muitas. Tornou-se um jeans viajante, estava mais na casa das vizinhas do que no meu corpo. Uma delas pegou-o emprestado não me devolveu nunca mais. Nossas roupas eram de uso coletivo, não sei se ainda há essa prática, mas no nosso meio, em nosso tempo, havia e muito.

Na ‘boate’ a Cida arrumou uma confusão, fomos embora antes de acabar a festa, mas tivemos de esperar o ônibus, fizemos um bolinho de gente, nos aquecíamos do frio numa calçada, ora dando uma pestana, ora tirando o sarro da nossa capacidade incrível de arrumar briga com os metidos a besta.

A cidade em sua lógica capitalística não sabia o que estava a fomentar em nós. Estava ali coroada a união entre a santíssima trindade e eu, a recém-convertida, eternamente fiel e devota ovelha, sedenta pela hóstia do riso e vinho da alegria. Amém.

Ouça nossa voz: A santíssima Trindade

Publicado por arlete mendes

escrevinhadeira, educadora, mãe de meninos e meninas, amante da música, da literatura, da vida!

9 comentários em “A santíssima Trindade

  1. Não acredito, podia se “Vida de pobre – 0”, rs, nossas cósmicas ligações!
    Passei muitas madrugadas esperando coletivo saindo dos salões… mas ao contrário de ti sempre fui festeira e você trabalhava muito.

    Curtido por 1 pessoa

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