Pai?


por Celane Tomaz

Era junho e os velhos dias cinzas de outono renovavam as folhas e desbotavam o tempo. Minha mãe, sempre tão doce e amável, aguardava por tantos dias – azuis, alaranjados e cinzas – a vinda da família para a semana de visitas. Era um daqueles domingos. Doídos. Meu pai, com seu porte sempre rígido e a seriedade de um homem sem muitas fragilidades, que também sabia encobrir suas fraquezas, preparou tudo para nos receber. Pintou as paredes, lavou e arrastou os móveis do velho quintal e cortou a grama, ornando com suas plantas vivas e as flores coloridas do seu jardim a imponente casa, entre as árvores, até o quintal dos fundos – o lugar da mobília inútil, dos pesos das tranqueiras desprezadas e de tanto ferro enferrujado.

Meus filhos, meu marido e eu tranquilos. Meu irmão, meus sobrinhos e sua esposa gratos. Minha querida mãe terna e dócil. E aquele homem: era meu pai.
Todos na sala de casa, envolvidos pelo afeto do sangue que nos unia. O afeto presente e estático nas incontáveis fotografias, aprisionado nos porta-retratos. Entre malas, risos, apertos e abraços nos reconhecíamos ao retornar ao leito de abate da minha infância.

Após o fim do dia, ergueu-se a madrugada calada. A noite se prolongava sob um céu de estrelas ofuscadas. Nuvens encobriam as mudas horas em que todos dormiam e o meu corpo, mesmo cansado da longa viagem, despertava. Ruídos perfuravam o silêncio. O barulho do vento, antes da chuva, soprava e uivava pelas frestas das portas, agitava as janelas do quarto de hóspede no andar de cima do casarão em que vivi há tanto tempo com meus pais e meu irmão – neste distante interior. Fechei as janelas com vista para o quintal dos fundos e decidi dar uma volta. Abri a porta de madeira pesada do quarto que resistia ao vento, a porta que ignorava o tempo e guardava na sua vil existência algumas doídas memórias. A porta, testemunha muda dos gritos, choros e sussurros de uma infância brincada sobre o medo e de uma adolescência em desvida, enquanto o corpo de menina transcendia e respirava ofegante o fôlego da puberdade.

Meu pai era um senhor sem muitas marcas de expressão. Seus olhos escuros, como todo o era, seu corpo forte e lábios sem curvas se esbarravam em seus punhos sempre em movimento: abrindo e fechando, inquietos como quem espera. Nas paredes brancas de tinta fresca, as marcas escondidas pelos incontáveis apelos. Os corredores cobertos pelo lustre piso de madeira barulhento, que sempre me denunciava. Eu passava devagar. Ao descer as escadas, o corrimão coberto de verniz recém pintado ainda segurava a minha mão. Mas a casa sempre impecável. O cuidado e o zelo julgados ao que merece.

Ainda descendo as escadas para o quintal da frente, as árvores do jardim de plantas e flores, agora de sombras sombrias, balançavam. Meu corpo esfriava, acordado e atento, diante da penumbra daquela noite. Ao sair da casa, cruzei os braços e me encolhi, refugiando-me na camisola de seda branca. Ouvi um barulho. Observei e segui algumas pegadas marcadas no barro. Em lentos passos e sem medo, aproximei-me em direção ao quintal dos fundos, onde a mobília velha enferrujava.

De súbito, avistei um ser estranho agonizando escondido em mudo desespero e solidão. Meu corpo frio paralisado o contemplava de mãos atadas. Por longos segundos olhei-o com piedade. Os olhos dele encontraram os meus olhos atônitos. Pude ver a súplica, entre muitos fios, pelo fio de vida que descia junto à lágrima lenta pelo canto da face desconhecida. A vida pedida no ar rarefeito buscado pela boca entreaberta que espumava. Seus braços e pernas se debatiam, mas o perturbador barulho se confundia com o som das madeiras abaladas pelo sopro do vento da chuva advinda. Ninguém o podia ouvir. Apenas eu, ali – estática, impotente e, como sempre, sozinha.

Escolhi dar as costas. Retornei em passos rápidos para o interior, meu e da casa, deixando minhas pegadas em poças d’água. Subi as escadas, ensurdecedoramente quieta, corri – como na infância – para o quarto, na tentativa de me esconder, e já não era mais dos gritos, não mais da fuga da cólera silenciada. Era do pedido de socorro. Dele.

Dormi. Dormi um sono tranquilo e sem culpa, e gozei o descanso dos inocentes. Logo cedo, a umidade da manhã encharcou o novo tempo. Levantei-me e abri as janelas. Mamãe mais uma vez, como há tantos anos, subiu até a metade das escadas e nos chamou aos gritos com sua doce voz. Era para o café da manhã. Dessa vez não o era. A voz de mamãe e o café experimentado naquele dia eram os mais amargos. O ser estranho estava lá, no quintal dos fundos, e no profundo quintal da minha alma de menina.

O ser estranho era aquele homem pálido, assim como os dias de outono. Adormecido pra sempre nos fundos da casa, como uma mobília inútil, velha e enferrujada, amarrado aos fortes fios que o sufocaram, amordaçado em si por seus próprios punhos. A vida toda. O ser irreconhecível estava lá. Tão perto e tão longe, frio como aquela manhã. Seus olhos pela primeira e última vez me pediram, me imploraram. Um perdão impronunciável. Já não era mais vivo. E eu corri. Corri, corri, corri, respirando o fôlego da vida que me foi tirada, com o mesmo vigor da minha infância perdida.

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