BR-S909 contra Golias (parte 2)

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Trabalho de OSGEMEOS na Avenida 23 de maio, em São Paulo.

Arlete Mendes-

Um ruído contínuo, estarrecedor agregado a um lusco-fusco alaranjado, intenso a fez cerrar os olhos. Levou as mãos até os ouvidos. Sentiu a pedra pesar para além de sua densidade, ainda estava ali, mas o alarme a fizera recolher ideias e passos. Fechou a vidraça.

 O som e a cores cessaram. Agora ouvia seus pensamentos.  Quem a vigiava? Irrelevante exemplar de sua espécie, destinada a cumprir seu papel mecânico e repetitivo a cada manhã. Por que ainda a mantinham viva?

A pedra. As luzes alaranjadas. O som. “Flashes” de memória. O chão. As árvores. O fora… Era aquilo. Precisava sair daquele lugar-caixa, que nada tinha a ver com um lar. Não sabia o que era um lar, mas não era aquilo, definitivamente.

Eis que uma pergunta nunca elaborada, rompeu em meio à confusão de imagens e sentimentos. Talvez por ser improvável. E se… não, isto não! Mas… e se… Ridículo. Faça a pergunta! Tenha a coragem… E se não há mais ninguém a vigiar? E se tudo isto for uma farsa. E se eles diante do caos perderam todo o controle que nunca tiveram sobre a vida… E se tudo isto for uma ficção…

Que besteira! Os drones estavam ali há tanto tempo quanto ela. Repetiam a programação. Alguém os vigiava, sem dúvida. Quando se recusava a cumprir o ritual, havia o castigo. Sem água ou ração. Os vigilantes aéreos não era invenção.

Ideias são impulsos elétricos provenientes da teimosia humana. A captura, a volta à prisão, o entorpecimento, poderiam ser mera resposta do sistema ao estímulo por ela causado: a fuga. E se os logaritmos desencadeassem toda a rota da roda em que ela, rato, girava. Haveria de achar a fresta da gaiola?

Parou nesta última conjectura. Percebeu ali um misto de revelação e agonia de quem está diante de uma vertiginosa epifania. Ver-se representada em personagem nessa pantomima irônica lhe trazia dor. Muito mais vergonhoso era imaginar quem estaria rindo da piada de mal gosto…

Avançou corajosamente, apesar do absurdo de si e dos senhores que a mantinham contida, iniciou uma busca no banco de dados a que tinha acesso, notícias de cinquenta anos antes do seu possível nascimento, ou simplesmente da data e código que constavam em sua pulseira. BR-S909- 01.01.2089. Não sabia exatamente se essa era sua data de aniversário. Recebia involuntárias felicitações das redes sociais. Sentia a passagem do tempo, isto era tudo.

Horas incansáveis de pesquisas, leituras, tentativas frustradas de respostas. Passou a mão pelo bolso, a pedra ainda estava ali. Arranhou as unhas na vidraça e arrepiou-se diante do ruído. Não se lembrava ao certo como havia aprendido a ler, algo que teria acontecido através de interações com inteligência artificial, jogos e as conexões com a rede.

Algumas pistas sinalizam para lixo espacial, satélites, possível ruptura de controle dos GPS, comunicação, idade das trevas da humanidade… A sequência dessas palavras, ainda que aleatórias, se encaixavam, por desespero ou conveniência, não sabia ao certo, eram o incentivo que precisava para retomar o plano.

Há cercas que barrem a vontade humana? Queria irromper quaisquer cercas que existissem. A mais imediata: a caixa. Esperou o entardecer, lembrou-se do toque dos pés na terra úmida, a verdejância logo ali, a poucos passos, e isto lhe deu um alento…

Ao som daquilo que para ela eram acordes da liberdade, lançou as telas ao chão, que estilhaçaram num estalido seco e craquelante. Conectou os fios nas tomadas gerando um pequeno curto-circuito, o som excruciante do alarme e as luzes acobreadas não a tiraram do foco, uma força primitiva começara a brotar, gradualmente devorava o espaço minúsculo.

Ficou alguns minutos, deslumbrada com o trabalho admirável daquele pequeno deus gerado de uma única faísca, essa mesma chispa criadora do universo, que habitava dentro dela e a fazia desejar o desconhecido, mover-se para frente. Peça cega no xadrez, que num pequeno assalto pode promover uma reviravolta no jogo sistemático de opressão e de controle sobre a vida. Ela e o fogo eram irmãos. O sistema anti-incêndio digital não contava com uma mão delicada e fina a danificar os sensores e a entupir os canais de defesa.

Entregue à beleza do caos, BRS-909 não notou que os drones jaziam ao chão, nenhum helicóptero fora acionado, nenhuma presença humana ou inumana. Quebrou a vidraça e empunhou um pedaço pontiagudo sobre a cintura. Era sua quebradiça armadura.

Pegou a pedra do bolso, aproximou-a da face, olhou-a fixamente e fez uma reverência ao pequeno fragmento metamórfico, beijou-a, guardando-a rapidamente.

Ninguém viria. O céu punidor fora destruído. O sistema é uma farsa, o controle uma fábula. Desistiu de pensar naquilo que lhe dava ânsia. Partiu.

Pela primeira vez deitara-se ao relento, tomou água de orvalho e experimentou amoras. Emanava do seu hálito um cheiro agridoce. Precisava de mais? Dormiu extasiada.

Acordou de sobressalto, ainda na penumbra, havia se agarrado tão firmemente ao caco de vidro durante o sono que este a fizera sangrar… olhando o corte a esvair, teve uma certeza.  Estou viva, é hora!

A cada cela translucida encontrada, dois pares de olhos abismados fixavam-se no nunca visto. BR-S909, sua arma de vidro ensanguentada, caminhando livremente a jogar-lhes pequenas pedras.

Ouça nossa voz: BRS-909 contra Golias (parte 2)

Publicado por arlete mendes

escrevinhadeira, educadora, mãe de meninos e meninas, amante da música, da literatura, da vida!

5 comentários em “BR-S909 contra Golias (parte 2)

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