Menino-pai

Arquivo pessoal – Ettore (pai) e Ana Karina (filha)

Ana Karina Manson

A ideia de perder meu pai é algo que não consigo explicar, menos ainda entender.

Como entenderia viver neste mundo sem a pessoa que me protege, me defende?

É contraditório: foi ele quem me ensinou o que é certo, mas me defende mesmo quando estou errada.

Costumo pensar em tudo que ele – meu pai – significa para mim: meu chão, minha proteção, minha defesa. Lembro-me de seus olhos quando me encontrou na garagem após um assalto e no seu heroísmo ao me defender das lagartixas. Meu protetor: desde as inofensivas lagartixas até os homens maus desse mundo.

E é tanta minha alegria em tê-lo que me dói pensar nessa sociedade machista que não ensina e até proíbe um menino de aprender a ser pai, aprender a cuidar. Comemoramos por alguns que se salvam dessa engrenagem doentia, estimulando desde sempre as meninas a serem mães, a acalentar. E abominam os meninos que embalam uma pequena boneca, inofensiva.

Para eles: dirigir, chutar, olhar para o céu procurando a pipa a fim de cortar a brincadeira do outro ao invés de olhar para o amigo que está ao lado.

Para elas: cuidar, acarinhar, brigar também, mas resolver sem violência e com sabedoria, olhando para a amiga que está ao lado.

No salvem-se quem puder da paternidade, ocorre-me um misto de gratidão por ser privilegiada e indignação justamente por ser um privilégio. Ocorre-me a pergunta: ‘por que não mudamos isso?’

Ora, se sabemos que os meninos também precisarão embalar seus filhos por que não oferecer a eles desde a infância tal experiência para que seus braços já conheçam este movimento da mesma forma que é feito para que se apropriem do movimento de esticar os braços para alcançar o volante?

Por estes dias, um senhor, já adulto, já pai, perguntou-me o que preencher numa ficha cadastral no item “nome do pai”, pois em seu documento nada consta.

Minha resposta foi para que deixasse o campo em branco e, de certa forma, notei que sentiu como se eu me referisse ao espaço que ficara vazio não no papel, mas em sua vida. Espaço em branco.

Nesse instante me veio à mente tantas ausências paternas que já me foram narradas e como elas reverberam por dentro e por fora de tantas vidas.

O senhor ainda perguntou por que os pais fazem isso, como se fosse um menino indagando, como se o questionamento tivesse ficado guardado desde a tenra idade e, sem ter quem ouvisse a sua dúvida-angústia ou sem ter uma resposta a ela, a pergunta ficara passeando por anos e anos em sua mente.

Eu, na minha já aparente indignação lhe disse que só os pais poderiam responder por que abortam seus filhos nascidos. Porém, queria falar que ninguém – nem eles, nem elas – abortam por prazer ou alegria.

A vida acontece e dói. Dói tanto que em alguns momentos queremos sumir e, aquele que não aprendeu a ficar, realmente some ou fica sem estar. É preciso aprender a ficar. Tanto meninas quanto meninos precisam aprender a soltar a pipa, sonhar com o vôo, mas também precisam pegar em seu colo sua própria boneca-pessoa. Aprender a ficar e oferecer seus braços – cuidar. E àqueles que estranhem um menino embalando uma inofensiva boneca, diria somente: “pense o que você quiser”; no futuro ele será PAI.

5 comentários em “Menino-pai

  1. Gosto muito desses deslindrar que o texto faz entre o fora e o dentro, entre o social e o o indivíduo. Como deflagra os processos de resistência diária dentro das rotinas familiares para que sentimentos, ideias e vidas perseverem. Tocante!

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