Ele

Foto: Andre Motta de Lima e Leandro Duran

Thata Alves

A sua agilidade surpreendia a todos, desde menino ele corria pelos cantos, uma velocidade nos pés… Sempre quando as vizinhas precisavam do ingrediente faltante para compor receita daquelas que a gente não pode parar de mexer, chamam por Ele, pois ele sabia todos os caminhos de atalhos para ir mais rápido as vendinhas.

Ia num pé e voltava no outro, a vizinha achava que ele tinha ido com uma cor de camisa, depois viu pensou: “Deve ter agilidade até pra se vestir.” Ingrediente entregue, e claro que a vizinha sempre lhe oferecia um pedaço primeiro da receita pronta, afinal. Grande parte do sucesso se deu pelos caminhos percorridos d’Ele.

Foi chegando a adolescência, e por ter a pele escura quase não tinha histórias de romances pra contar, não era ele o preferido das garotas. Mesmo que ele se destacasse por sua risada gostosa de dentes branquíssimos e sempre fosse o mais descontraído dos meninos, tinha uma malemolência na educação física, quando aplicada a capoeira, no futebol era o mais rápido, nas danças de final de ano o Ele tinha um dendê! Talentos vários. Mas como já sabido, menino negro nunca é assumido socialmente como um companheiro. Na vida adulta muda pouca coisa…

Só que devido a tantas habilidades físicas, o corpo d’Ele torneia! Barriga se define, braços criam muques admiráveis, as pernas lindas atléticas, porque caminhar, correr, estar em caminhos, sempre foi seu hobby predileto. E mesmo com a comilança d’Ele, o bicho não engordava nada. Perguntavam-se as más bocas pra onde ia aquilo tudo!

…Houve uma festa no morro, era aniversário da benzedeira. Ele já tinha passado pelas mãos dela várias vezes, o menino era danado e sempre se cortava, se machucava, de tanto que corria! No futebol zagueiro nenhum o parava tamanha velocidade que ele exercia, então o quebravam no jogo de várzea, só assim pro Ele parar… Seu time do coração era o Galo, sempre jogava com a camisa do time. E no quintal da vó tinha um galo de estimação. Por essas e por todas, Ele fez questão de estar no aniversário de 85 anos da Dona Ida. A senhora da Bahia que tinha uma cor de azeite quente dourado, não envelhece nunca!

E quando se apagaram as luzes pro parabéns! Ele que tinha os olhos alumiados pelas velas, eram os mesmos olhos brilhantes de seus bolos de aniversário, feito de pão de ló apenas. No escuro do parabéns, sentiu mãos delicadas em suas partes, logo transformou o olhar e apesar de ter gostado, estranhou tal carícia, não achou quem lhe ofertara. As luzes se acenderam e a Dona Ida entrega o primeiro pedaço de bolo, a sua neta mais linda, era ela quem morava com a senhora quando familiares não a queriam cuidar… Lis, aceitava o bolo das mãos trêmulas de Ida, e olhava fixamente pra Ele, como quem denuncia o fato consumado. Sim é ela quem o deseja, e investiu contra o moço de forma peculiar. Ele demorou a crer, pareceu encantamento, e num riso de nervoso, soltou uma gargalhada. Não soube explicar a gargalhada solta, se envergonhou e rapidamente sumiu, por seus caminhos.

Trinta minutos depois, Lis aperta a campainha d’Ele, que olha pelo olho mágico do portão e se depara com um par de olhos amendoados de Lis, ela tinha uma tatuagem nos braços de Lírios, a própria toda era uma flor, perfumada igual. Ele se ajusta rapidamente, paga o garfo, arruma o black, fio se ajeitam, fios se ouriçam, pois de desajeitado que era, seu garfo quebrará os outros dentes tendo este apenas 3. Olha no espelho da sala e sai.

– Oi! Boa noite Ele, você saiu da festa de vovó sem ao menos comer um pedaço de bolo, que eu mesma fiz, achei estranho pois sempre foi comilão.

– (Gargalhada de nervoso protagoniza) Desculpa, érrr, é.

– Tudo bem eu amo sua risada, ela é contagiante, não precisa se desculpar.

– Saí porque ficou meio tarde e você sabe como é né? Preto, na rua escura, descer o morro, nunca é fácil pra nós.

– Sei, sei bem como é, meus primos todos têm sua pele -ambos riram- Aqui está meu telefone, coma o bolo e me diz se gosta…

– Pode deixar, tchau.

– Um beijo. – A frase: “Um beijo”, perpetuou os ouvidos e pensamentos d’Ele, como acreditar que aquela rainha de Ketu estava dando bola pra ele? Comeu o bolo, se lambuzando todo, viajou achando que aquele era o gosto do “beijo” da moça, lambeu, pote, tampa, o guardanapo. Dia seguinte rotina d’Ele volta, de manhã dá comida ao galo, comprar os pães para casa, de tarde se encaminhar ao chaveiro que é onde trabalhava fazendo cópias de chaves. Pensava: “qual dessas abrirá o coração de Lis”. O expediente no chaveiro acaba e ele se encaminha para pizzaria onde faz o bico, para complementar a renda em casa.

Zero horas a pizzaria fecha, ele guarda a caixa e entregas e volta pra casa. Se assusta ao olhar o portão, um corpo esculpido por Deusa, só mulheres têm a fôrma e a forma. Era Lis, ele estaciona a moto, desce, tira o capacete, mas o derruba por vergonha, ansiedade e espanto. E diz:

– Boa noite Lis, tudo bem?

– Tudo sim, me desculpa pela hora, mas é que o pote que coloquei o bolo pra você é da minha avó e dos preferidos dela. Pediu pra eu buscar.

– Ah claro, claro, já lavei, está no escorredor eu pego pra você.

– Espero aqui. – Ele não tinha lavado nada é claro, mas se agilizou no fazer, procurou uma sacola bonita pra dar pra moça, mas nessas horas todas as sacolinhas somem né? Pôs, então, em uma caixa de tênis que ele comprou há pouco. Saiu e entregou à moça. Ela riu do embrulho, mas gostou da preocupação e gentileza dele, atreveu a pedir também uma carona, já que era tarde, morro, peles pretas e etc. Ele logo aceitou, disse em voz alta:

– Putz não tenho outro capacete! – Ela como feiticeira exibe um que tem, rosa, quando ela namorava Vinicius e com ele de moto saía. Ele, põe a chave na moto, a moto morreu três vezes, ele gargalha, ela também, a moto então decide ligar, ele sobe, posiciona a moto pra ela subir. Ela sobe, eles sobem o morro. Lis, usa as mesmas mãos delicadas da festinha de dona Ida, e atravessa o jeans d’Ele. Que desequilibra na moto, mas não cai, não sabe como reagir, gosta do presente e facilita o desembrulho. Ele que sempre foi rápido, ágil, veloz, reduz a moto a 10 km/h para que os carinhos não cessem. Seu músculo enrijece, quase alcança a buzina da moto e ele tenta ser discreto, mas não dá. Faltam apenas duas casas pra chegar na dona Ida e Lis sugere:

– Vamos pro campinho? – Ele gagueja e diz:

– Onde é? – Mente, pois conhece todos os caminhos de seu bairro, quiçá da sua cidade. “Deixa ela conduzir”. No campo um gol de placa, Lis estava de vestido e sem calcinha por baixo nem sutiã, nunca entendeu pra que os tecidos de baixo serviam? Quando os usava abafava seu corpo, gerava odor. Quando experimentou descartá-los, era flor de Lis que perfumava.

O time estava em campo, na trava dele ela embalava. Já teve romances outros mais, do tamanho d’Ele, nunca ousou! Não havia, fita métrica, trena, régua, metro que comportasse o cilindro órgão. Lambuzou-se Lis, com a delícia que era fazer amor com Ele. Assustaram-se com o canto de um galo, ajeitou a saia, limpou os resíduos de batom. Viram que já era de manhã. Ele a levou rapidamente para casa, e em segurança. Voltou também para sua residência e na consciência só ela…

Ele, é Elegbara. Ele, é o homem preto na sociedade, Ele é Esu: Ser que é carismático com todos, por sua agilidade cria amigos, sua gargalhada contagia, o único garfo que pertence é o de garfar os cabelos, seu falo, fala, e não há quem não ouça seu comunicar. Assim como é Esu em nossa sociedade, em dado momento todos precisamos dele, mas por racismo não se assume necessidade. Esu é o orisa, mais discriminado, por nada fazer! Ele cobra, não castiga, ele comunica não grita, ele abre caminhos ensina. Esu é o dono das chaves, não o chaveiro. Esu é o mensageiro.

5 comentários em “Ele

  1. A história nos leva junto; impossível parar de ler! E ainda traz questões tão necessárias que precisam ser ditas, pensadas, discutidas e, se não forem, nada muda.

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