Cerejeira, cerei, cer

Licença poética no título. Ao tanto que cabe, que se é permitido no Ser: sonora e metaforicamente.

por Celane Tomaz

Nunca sei quando uma flor há de morrer ou nascer. O que me aduba é a espera pelos dois – dualidade vivida da ponta da pétala até as rígidas raízes entre terra e escuridão.
Resisto à exatidão do tempo que determina cada estação. Vivo das surpresas secas e vitais de vida, plantadas ou cortadas em qualquer rua ou jardim.

Por estes dias, observei que as cerejeiras do canteiro central da movimentada avenida começaram a assanhar suas flores sob o frágil sol de inverno. Lembrei-me de que elas começam a florescer no frio. Anunciam que a primavera está próxima, transformando-se entre esperas, chegadas e partidas. O parir a si mesma é a própria anunciação da mudança.

Florescer no frio. É como contestar a importância do deus sol e a sua soberania, exaltar a frieza das sombras. É como se brotasse vida no ventre dos dias gélidos e o sol em sua potência fosse algum intruso. Desabrochar na secura fria ou fazer sua força no potente sopro e na umidade tímida das garoas de inverno.

Nos sussurros de fim de tarde, entre os altos galhos e o chão, a leveza do ar que a maltrata – o vento forte e imponente é aquele que a revela. A queda molda sua formosura.
São tempos de ventos frios. Os dias estão incertos e alternados entre o sol e a palidez de um inverno incomum. Às cerejeiras, um atraso de vida, um nascer tardio! Apesar do sol desses dias, é preciso se entregar ao frio e ao cinza da estação para alcançar suas cores.

De mortal e imperceptível botão à flor madura e confessa, que corajosamente escolhe desprender-se do grande corpo que a sustenta, deixando os galhos frágeis que a prendem.

Os homens pisam as delicadas pétalas que ornam o chão. Pisam-nas admirando e venerando sua natureza, enquanto as rasgam com o peso cruel de seus próprios pés.
Um tanto de flor na árvore, outro no chão e, entre elas, a brevidade da vida. Tão fugaz, porém marcante e bela sua existência. Talvez tema ser apenas memória. Talvez apenas deseje ser. Ali. Deslumbrante, hipnotizante, fascinante e efêmera, ornando o mundo-vaso do instante.

A cerejeira desviou o meu olhar dos céus, levando-o ao vislumbre do chão. Provou a mim que, domando e espalhando-se livre por toda a árvore ou mesmo caída e pisada pelo chão, ainda é ser, ainda é.

Cerejeira, cerei, cer_ OUÇA


5 comentários em “Cerejeira, cerei, cer

    1. Esse mundo-vaso é imenso, mas finito. É preciso nascer, florescer, esticar-se ao céu em busca de liberdade para além do vaso que nos prende…
      Suas imagens me fazem ir tão longe para dentro de mim.

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