Antonímia

Renato Rodyner: Avatar

Adriana Drih Paris

Antónia minha, sua Toninha. Tola – atônita.

Meus avós vieram de Minas, minha mãe cresceu em Longá. O meu pai é de algum lugar do sul – nem sei. Se conheceram numa praia do Rio, nasci num hospital da Lapa, nos mudamos pro interior de São Paulo – Toponímia.

Desde criança fui grande e lia todos os outdoors sem ainda conhecer as palavras. Eu tinha apenas quatro anos e ouvia os gigantes contarem as pequenas notáveis histórias de cabeceira e eu fingia dormir.

Ainda bem jovem fumava o cigarro apagado, tragava a cenoura cortada como fazia a professora Isabel no intervalo da aula de História. Puxava o ar sem fôlego segurando o choro pra lágrima já seca e ácida não tentar cair toda vez que ganhava apelido novo na escola. Tormento. Tirania.

Cresci vendo os grandes se apequenarem, e aos finais de semana tomava dois goles de uísque – sem gelo, sem mesmo dar um trago, só de olhar o copo que manejava meu pai, no balcão do bar, que ficava no fim da rua do curso primário.

Vi também alguns padres, que passaram pelas três igrejas da cidade, se esconderem sob as batinas. Aquela roupeta sem marcar silhueta, camuflava trejeitos, beatificava o engodo, separava joio do trigo. Resolvi fazer seminário.

Certo e errado, esquerda e direita, menina e menino, sim e não, rosa e azul, bem e mal me perseguiram o tempo todo – Antonímia.

Nem um mês depois desisti da ideia do celibato. Logo percebi que a ética sempre foi pregada por falsos moralistas cheios de tabus. Aprendi ser tolerante num país intolerante, que tem a hipocrisia como virtude e sacaneei minha própria existência quando devolvi o livro não lido e o vinil que nunca ouvi – pois a vitrola já não toca faz um bom tempo.

Não vi a sua Toninha crescer, mas vi – eu – António morrer. Antonímia.

Costuro nuvens, afivelo o cinto, faço trança no cabelo, recito o pai-nosso, canto o hino nacional, passo batom, uso cueca apertada, toda terça vou ao salão, falo meu nome, não mostro RG, pago a conta, comprei um carro, tenho diploma, falo inglês.

Meu avô era calvo, meu pai é careca, seu outro filho já não tem cabeleira – sinonímia.

Deixei meu cabelo crescer.

Rezei quando não tinha mais sant@ nem mais pedido a fazer, porque aceitei me olhar e não mais ver o protótipo idealizado por meus pais. Amadureci acreditando que a juventude existe independentemente da idade – está na cabeça de quem ousa pensar que pensa.

Não gasto meu nervo-palatino-médio pra degustar dissabores de olhares avessos.

Continuo vendo sorrisos em rostos pálidos e solitários, ouvindo gracejos de quem não se olha no espelho faz tempo por que não enxerga o reflexo, se vê turvo, obscuro, sem enchimento, cheio de tédio, um homem médio.

Quase morri quando ainda no auge vida me calei, fingindo estar tudo bem pra você ficar bem e não morrer por mim.

Não sou mais António, sou linda. Antónia minha. Sua Toninha. Tolinha – Antonímia.

2 comentários em “Antonímia

  1. Essa construção de nós mesmos na busca de nossos antepassados, de nosso presente – em nosso avesso, e até no podemos ser, oi não. O texto me fez caminhar nessa busca, encontro e reencontro e busca…

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