BR-S909 contra Golias

Mulher Chorando, Pablo Picasso | Historia das Artes
Pablo Picasso: Mulher chorando

Arlete Mendes-

Olhar fixo no céu. A punição ou a recompensa viriam de lá. Mirou para seu corpo magro, forte e lépido frente ao espelho. Seu único aliado. Preparou uma porção de ração do dia. Dirigiu-se para o treino à exaustão, se mantinha lúcida. Os canais e a redes eram sua única comunicação muda com o mundo, no demais aquele que manifestasse qualquer traço de anormalidade era reformatado.  Os mais insistentes, eliminados.

Primeiro um levante da natureza aliado à aplicação mais cruel das teorias de Darwin, depois uma nova ordem mundial. O ambiente isolado e estéril em que os sobreviventes pouco a pouco se adaptavam, somado à alimentação sintética, às doses controladas de substâncias injetáveis e ainda a outros quadros de violência e morte, levaram ao que restou da espécie humana a uma vida sem fome, sem doença, sem…

O plano, a princípio, tentador, era uma humanidade sem dor. Mas as jogadas políticas e os golpes entre nações desencadearam guerras silenciosas, tecidas sorrateiramente sob os holofotes de uma pretensa vida de paz.

Quem vemos agora em seu ambiente controlado é BR-S909, em seu país a devastação foi aniquiladora. BR-S909 é fruto de uma experiência logo abortada, ainda tem resquícios de memória de pai e mãe humanos. Os outros nascituros cresciam agora somente com interação de inteligência artificial. Por isto o controle sob as ações de BR-S909 é reduplicado.

BR-S909 tem tendência suicida, sonhos de voos e gosta de leite quente com canela. Curiosamente ainda se lembra do rosto da mãe. Agarrou-se a essa imagem fugidia como quem na linha de fogo se agarra à última bala da automática. Tem desejo de morrer e de matar. BR-S909, não sabe, mas está próxima da sua extinção, por não ser interessante ao projeto mundial de humanidade implementado.

Nesta manhã BR-S 909 não apenas cumpriu sua rotina, assistiu aos canais e curtiu as postagens na rede, eram essas as condições, caso contrário seus suprimentos seriam cortados. Nunca ninguém o disse, assim como ratos em laboratórios, pelo método empírico o descobriu.

Cumpriu seu papel de costume com uma ideia subversiva em mente. Desativar o drone que a vigiava e a impedia de sair daquilo que por hora chamaremos de casa. O plano era simples, um golpe certeiro, durante o pouso que traria os suprimentos, desativaria os alarmes e saltaria as grades. Usaria a camuflagem necessária para dar os passos necessários até que o próximo dispositivo de controle a descobrisse e lutaria como pudesse.

Esperou sorrateiramente o momento mais propício e assim o fez, com um único golpe de suas ágeis pernas estraçalhou o pequeno guarda eletrônico. Desativou o alarme e antes que o sistema notasse a falha, saltou as grades e enfim estava na rua. Não sabia o que a esperava do lado de fora. Parecia nem saber caminhar naquele solo nunca tocado. Apenas correu, correu sem olhar para trás uma vez sequer.

Quando se sentiu segura, parou e se deu conta do grande vazio que habitava o mundo, viu também de perto a verdecência das árvores, pássaros, chão e pedras, resultado de um século sem intervenção humana direta refizera o planeta. Pensou em seu egoísmo e se sentiu indigna de estar tocando num solo tão puro. Merecia o cárcere? Não, não voltaria, nem morta! Como conseguiria se manter, já que a ração era uma porção dada diariamente, não sabia.

De repente um foco intenso de luz e helicópteros barulhentos a cegaram. BR-S909 refaz nova corrida, mas um tiro a neutralizara. Em poucas horas estava em seu…  lar?  O número de alarmes e de drones havia aumentado, se sentia mais letárgica do que o de costume. A cabeça com um zunido e imagens novas se entrecortando, estação de rádio em duas frequências.

Nenhuma palavra o sistema dirigiu a ela. Isto era a prova que tanto queria. Acordou mais disposta. Olhou para o céu, a punição era menos dolorida do que o cárcere.  Tinha seu corpo como aliado. Continuou seu rito matinal com o sorriso de canto de boca, que de tão obtuso as lentes não puderam captar. Tocou por cima do bolso esquerdo, estava ali uma pequena pedra. Era tudo que precisava.

(continua…)

Ouça nossa voz: BR-S909 contra Golias

Publicado por arlete mendes

escrevinhadeira, educadora, mãe de meninos e meninas, amante da música, da literatura, da vida!

3 comentários em “BR-S909 contra Golias

  1. Começou uma série? Como você nos capta e a gente não consegue parar de ler e ouvir!!!! Viajei por Bacurau, Lucy, Corra Lola corra… viajei por nós (sobre)vivendo nesse mundo virtual! Viajei muito e tenho precisado tanto. Obrigada pelo passaporte.

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  2. Esperando ansioso pela continuação. A tentativa de suprimir a dor humana talvez seja a mais restritiva e controladora ditadura que possamos imaginar. A melhor das justificativas, o pior dos regimes.
    BR-S909 me cativa. Que as lembranças de nossos pais, mãe, tios, primos, amigos humanos sejam nossa salvaguarda. Será suficiente?

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