Amor-alimento

Three Destinations, Remedios Varo

por Ana Karina Manson

Tem gente que escolhe cenários com livros, plantas, cortinas improvisadas e outros para as lives de cada dia. Ela estava simplesmente ali debaixo das panelas.

A imagem das panelas penduradas na cozinha e ela sentada embaixo fazia pensar no poder desse lugar-panela. E assim suspensas, no alto, sobre a cabeça pensante faziam crer em como a panela é rainha de cada casa.

É quando a panela fica vazia que os olhos se encontram ou se separam para sempre.

E a panela cheia! Tem casa de pobre que a panela parece um poço de onde não para de sair comida. Chega irmão, chega primo, chega tio, chega a família toda e ainda mais – agregados, vizinhos, amigos e está lá a comida servida a toda hora.

Na casa de minha mãe é assim. Nunca ninguém fica sem comida! Herdou da vó o costume da fartura – o dinheiro não sobra, a comida não falta. Ninguém entende essa equação que faz render o pouco.

Na casa da vó era polenta todo dia. E feita na panela de ferro. A gente sabia a força da vó pelo peso da panela. Vó trazia a força de todas as mulheres da família que já mataram a fome de seus filhos no braço forte mexendo a polenta.

Força também tinha a outra vó: a dos olhos azuis. Dizem que herdei dela: os olhos e a braveza. Suas panelas não eram penduradas no alto. Mas enfeitavam as paredes. Vó passava cordões e pendurava as tampas que reluziam.

Hoje passeio ainda, em minha lembrança, pela sua casa e revisito aquelas tampas vivendo juntas, empilhadas e penduradas pelos cordões como vivem tantas pessoas ainda hoje, caminhando em cordas bambas tentando sobreviver; empilhando-se em casas, sobrevivendo com o que dá – ora com panela vazia, ora com o que tem.

As casas de minhas avós eram o cenário da minha infância. Sinto-me culpada por muitos privilégios que a pele e os olhos trouxeram (também há dores, mas são muito minhas); porém pelo privilégio de ter vivido com minhas avós, peço licença, para ter só gratidão.

Se sinto culpa foi por não ter ouvido mais suas histórias, por não ter escrito a riqueza da experiência de vida que viveram. A memória nos trai e tanta coisa já esquecemos do que nos foi contado.

É certo que há fatos que não esquecemos de jeito nenhum: o jovem amor da vó com o qual ela não pôde casar, pois seu irmão mais velho escolhera o meu vô para seu noivo. Porém, antes de morrer, já velhinha, ainda nos contava histórias sobre o tal rapaz.

E a vó materna que não nos contava – era tanto brava, como discreta – mas sabíamos que fugira com o vô para casar. Se não fosse isso não casariam, suponho – ela branca de olhos azuis, ele afroindígena. O casamento de certo não era aceito pelo seu pai ainda mais bravo do que ela, segundo nos contaram os mais velhos.

Vó era mesmo brava, mas tive a alegria de vê-la amansar ao aprender a fazer carinho e dizer “eu te amo”. Lembro-me que quando instalaram telefone em sua casa, não falava “nesse bicho não”; vó era dessas, tinha medo até de escada rolante.

Com o tempo esses medos passaram e toda vez que conversava comigo ao telefone, suas palavras de despedida eram “eu te amo”.

Vó foi aprendendo a amar; talvez precisasse aprender mais, porém foi embora cedo num dia ensolarado como era sua alma festeira.

Minha mãe conta que quando nasci, a vó visitava diariamente a primeira neta num tempo em que precisava caminhar, enfrentando as subidas e descidas entre o Parque Santo Antônio e o Figueira Grande e, mesmo assim, vó ia me ver todos os dias. Todos os dias.

De vez em quando ela deve ainda me visitar e mais ainda, há de espiar minhas meninas admirando os olhos azuis e a braveza delas.

Somos sim, todas frutos de dona Zefa; mulher de coragem que soube dizer não em momentos em que todos estavam contra ela. Era chamada insensível, mas me lembro de ver em seus olhos o coração partido quando precisou ser mais dura do que era sempre.

Não havia de ser fácil carregar toda aquela braveza!

Como não deve ter sido fácil parir sete filhos, mudar de um lugar para outro nesse Brasil achando jeito de viver, crescer analfabeta sentindo vergonha de ir à reunião do filho ou na hora de pegar ônibus.

Ao menos seus filhos são preciosidades, jóias raras em forma de gente, seu lugar no mundo ela achou e se assentou com meu avô – agora é lugar de seus frutos; e uma alma generosa a ensinou a escrever. Vó partiu e foi encontrar a outra vó e a Bisa e o vô e meus antepassados, gente de histórias doídas, de luta, mas também de amor; de muito amor que nos alimenta todos os dias.

6 comentários em “Amor-alimento

  1. Ai Ana, como dependemos dessa história… sinto que se não fossem nossas guerreiras e batalhadoras matriarcas, nada seríamos. Nem de força, nem de amor. Também, como você sinto pousar os olhares esmeralda e os outros puxadinhos das grandes matriarcas que me fizeram… nossas músicas seguem tocando em afinação e sintonia!

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