Mininu

PM de São Paulo imobiliza homem negro que participava de manifestação contra a morte de um jovem da comunidade do Moinho.ROVENA ROSA / AGÊNCIA BRASIL Em: brasil.elpais.com

Thata Alves –

– Po, pó, pó, pó!

– Não, menino, não, de policia e ladrão não!

– Haaa, manheê! 

Droga (isso; diz baixinho).

Menino não entende cuidados meus. Como é que vai entender? Sete anos só, e eu quinhentos de atraso.

Menino não sabe que agora brinca, mas que logo a frente tá na mira.

Eles atiram em você e eu como fico?

Do meu umbigo… Não, não, não, menino, policia e ladrão não!

Teu pai era funcionário administrativo, nunca vi homem mais inteligente do que ele, via relógio de cabeça pra baixo de tão bom que era com os números. Passava troco certinho, nunca ficou com caixa quebrado, exímio na função do financeiro. Só o cálculo com a escolha da profissão que não foi muito inteligente. Gerônimo era gerente… De uma lojinha lá no bairro.

Eu não sei quem me roubava mais, se cada viatura que passava na rua com luzes apagadas, descumprindo a lei de trânsito, como ação naturalizada roubando meu sossego por tentar proteger vocês dois. Ou seu pai que não me ouvia, e ao invés de estar num escritório, se enfiara ali.

Meu Deus! Quando o resultado do ultrassom saiu, e vi que era um menino. Ah, querubim, eu chorei tanto, tanto, tanto. O doutô achou que era alegria, mas num era. Era medo meu querubim, porque ali eu já previ todo seu futuro. Ali eu já defini quem cortaria seu cabelo toda semana, como escudo de uma boa aparência, ali eu já sabia que o RG tinha que ser tirado logo, deus me livre tomar enquadro sem o documento no bolso, já pensei na matricula da escola, uma que fosse bem pertinho de casa, pra que quando chegasse a hora de ir sozinho pra casa não fosse percurso longo o percorrido. Chorei menino, chorei. Cheguei em casa e dei noticia ao seu pai, que exclamou:

– Vai Corinthians!!!  Vou levar ele ao estádio no Itaquerão.

Gritei:

– Não!

– O muleque vai comigo pra cima e pra baixo.

– Não!

– Ensinar andar de moto.

– Nao!!

Pelo amor de Osala, não. Gerônimo não entendia  que a pele do querubim era o antônimo de liberdade. Que era vaidade se descuidar. Querubim tinha de ficar debaixo da minha asa, eu tinha que cuidar.

Cuidei! Ensinei tudinho, que não dá pra sair sem documentos, quando estiver na rua nunca coloque as mãos nos bolsos, deixe-as livres, para que todos possam ver que você não tem nada além de dedos na palma das mãos, canela nunca cinza, passa aí um creme para não acharem que pulou algum muro, e em qualquer movimento anormal, não corra!

Acalme seus passos, quem não deve não teme! Ensinei tudo isso ao menino, pensando que na adolescência ele precisasse das estratégias, mas com sete anos na rua, meu fio já era omi, tinha de ser.

Seu pai foi morto na brincadeira de policia e ladrão. Ele não venceu, nunca venceu, até quando era da sua idade querubim, as crianças nunca o colocavam como policial; sabe por que querubim? Era o mais retinto deles, pele dele brilhava de tamanha melanina. E num país mestiço ter aquela pele era de se honrar, ou pelo menos era para ser assim.

Era por isso querubim que ele era bom com números, sabia dos quinhentos anos de atraso, sabia que ele era o que a sociedade queria pra compor as estatísticas.

Ele contava com uma velocidade para desviar dos tiros feitos com o barulho de boca que os demais querubins disparavam sobre seu corpo, preto, pretinho, lindo, brilhante. 

Eram tantos que e com uma velocidade feroz em sua direção, que ele ficou expert em contar, desviar não dava , eram invisíveis, ate hoje não da pra desviar deles… E numa dessas quando maior Gerônimo virou sinônimo de alvo. 

                                                                                                          O atingiram!

“Existem homens maus/Sem alma e sem coração

Existem homens da lei/Com determinação

Mas o momento é de caos/Porque a população

Na brincadeira sinistra/De polícia e ladrão

Não sabe ao certo quem é/Quem é herói ou vilão

Não sabe ao certo quem vai/Quem vem na contramão”.

Por isso não menino, de polícia e ladrão, não!

Eis que meu amor se deitou com uma paixão.

6 comentários em “Mininu

  1. Texto necessário! É preciso falar desse racismo que já é sofrido antes de nascer! Até quando? Até quando?
    Por aqui minha alegria e meu pavor do ultrassom foi saber que eram meninas, pelas tantas violências do machismo. Somamos nossas lágrimas e nossas lutas!

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  2. A comoção torna lenta a escrita… Mas não esconde a revolta contra essa situação que coloca irmãos de periferia uns contra os outros. Por que afinal os “policia” também são nossos meninos… Até quando nos condenaremos uns aos outros?

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