O pouso do Colibri

Foto: Kaio Cunha

Arlete Mendes –

Para um país que nasceu com fome de futuro. A cada cana ou café plantado é uma promessa de amanhã que se desponta. Claro, se se considera o sonho de progresso de uns, porque se se considerar o que sonha outros, o que realmente se quer é a vida. Não importa como, por mais abafada, sufocada, vilipendiada que seja, para aquele que desperta sob o trinado da morte, o que mais importa é a vida.

Os devaneios dos senhores do futuro resultaram em grande acúmulo de capital, o agro é pop! Pelo esforço individual dos ilustres homens brancos, que pensaram em maneiras eficientes de obtenção de riquezas e multiplicação de bens, ao lutarem bravamente pela manutenção da famosa roda da fortuna: a precarização do trabalho, nunca se lucrou tanto, lucro este sempre guiado pelas mãos leves do destino, por destino também se pode compreender:  Igreja e Estado.

Poderíamos falar dos inúmeros ciclos de exploração, mas faremos um recorte temporal e nos debruçaremos sobre o ciclo do café. Coincidentemente no escoadouro desse ouro preto estavam envolvidas milhares de mãos pretas. Uma dessas mãos, cabeça, ombro, pernas e pés é que tece essa breve narrativa anacrônica. Quiçá se forme aqui uma fábula com um final moralista. Requer-se do leitor um esforço de se imaginar num passado muito distante, caso escutem alguns silvos ecoando nos tempos presentes, não se sintam incomodados, é tudo mentira.

Sem mais delongas, eis aqui, João Colibri. Jovem robusto, alto, ágil, inocente, de olhar preto esperançado. Nascido da Lei do Ventre Livre, ainda que nunca tenha gozado do gosto açucarado dessa palavra. Carregava vinte anos de existência e outros iguais de servidão. 

Liberdade parecia estar sempre légua distante, ao completar 21 anos, quando por lei nada mais devia ao seu senhor, João pediu para ficar. Não apenas isto, solicitou ao senhor o trabalho de distribuir a produção de café até as fazendas vizinhas. Como era extremamente veloz, forte e saudável ganhou em sua promoção a homem livre uma empreita sem paga. A única vantagem financeira eram as gorjetas dos mais benevolentes e os serviços extras que conseguisse arranjar. A mais-valia: estar junto de sua mãe que entoava os cânticos da velhice.

João Colibri sobrevoava léguas entre as fazendas e até o findar do dia já tinha distribuído cinquenta sacas de café torrado. A cada saca extra entregue, guardava o pequeno soldo, qual formiga carrega folha por folha precavendo-se do inverno. O inverno de João era ver a velha mãe, ainda obrigada a esfregar de joelhos o chão da casa grande, e seus irmãos, beirando à morte pela tortura. O plano era simples: comprar a alforria de cada um deles com o esforço de seu corpo moço.

Como o serviço de João Colibri se estendia até tarde da noite, tornara-se um caminhante noturno com volumosas sacas aos ombros. Logo as senhoras de bem se aproveitavam daquela figura lépida e singular para simbolicamente educar e conduzir os futuros senhores ao caminho da ética e da moral, contavam-lhes histórias de que aquele homem preto era, de fato, o papa-figo, que roubava as crianças desobedientes e as carregava dentro do saco, para em noite de lua cheia devorar-lhes o fígado.

Mais por desprezo que por medo esses senhorezinhos, quando em bando, faziam troça com o jovem Colibri, atirando o que tivessem à mão. João apenas desviava dos objetos lançados e apressava ainda mais o passo. Quem daria razão ao preto que serve? Deixassem as inocentes crianças se divertirem em suas fantasiosas narrativas de heróis e bandidos.

Por vezes esses infantes bem nascidos, lhe acertavam pedras, fora uma dessas, bem acertada no meio da canela, que custou a sarar. Por conta da ferida, João diminuíra o ritmo das entregas e ouviu uma promessa de surra caso não voltasse à rapidez de outrora. Ainda que não tivesse forças para o trabalho extra, seu lucro, João não falhou nenhuma entrega do seu patrão.

Era tarde chuvosa quando a turba de meninos fazia uma algazarra. É que um deles, o jovem Quinzinho, havia armado uma arapuca para pegar o Colibri. Este já cansado, doente e com as vistas grossas pela penumbra do cair do dia, se desequilibrou tombando por cima das sacas de ouro preto, irrecuperáveis pela lama em que se perderam.

Num ato vão de desespero tentava recolher os grãos, aos punhados, mas, inútil. Como conter o grão da vida? Se antes havia uma pedra no meio do caminho, João agora era a pedra no meio do caminho do progresso, mas destas facilmente removidas pela mão férrica da irrefreável engrenagem.

João, que sonhava alçar um único voo, teve ali mesmo suas asas cortadas. Cinquenta chibatadas e uma perna gangrenada. Sonhos pretos desfeitos à pedrada.

Aqui termina a fábula de João Colibri, o entregador. Pousou um colibri na varanda, sob espanto da incompreensível coincidência, ouso dizer que o pouso é passageiro, mas o voo é sina.

Ouça nossa voz: O pouso do Colibri.

Publicado por arlete mendes

escrevinhadeira, educadora, mãe de meninos e meninas, amante da música, da literatura, da vida!

6 comentários em “O pouso do Colibri

      1. Me enche o coração de saudade, de vontade, de emoção pensar nesse colibri e em nosso caminhar no Núcleo.
        Para além disso, me corrói esse peso histórico que parece nunca ficar mais leve. Tem sido muito doloroso os caminhos do nosso povo. A historia do passado ainda e presente. “A equação da vida é sem razão”…

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  1. E ainda há os que digam ” não foi nada”! Fábulas que nos trazem muitas lições, mas não de moral, mas antes de desigualdades e indiferenças, quem sabe despertem o mundo pra tantas injustiças!

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