Ser Eu

Jesuana Sampaio –

Quando cheguei a 4 anos atrás para moram em São Paulo, trazia os olhos inchados de tanto choro desaguado na noite anterior de um setembro beirando a primavera. Trazia também a culpa e o sentimento latente de que eu estava sendo egoísta. Nunca precisou ninguém me julgar, sempre fui juíza feroz de mim.

A luta por sonhos não vem sem peso, sem sacrifícios. Ninguém em sã consciência deixa pra traz 30 anos de história sem sentir medo. Acontece que medo nunca me paralisou, sempre fui bem corajosa. Dizem que coragem é agir com o coração, então, aqui estou eu com meu sonho de ser escritora na terra da garoa. Estou aqui pagando aluguéis atrasados, pendurando boletos e escrevendo. Será que há quem me entenda? Tenho crescido tanto que minha baixa estatura nem dá conta.

Entender-me enquanto esta eterna estrangeira, retirante, de sotaque permanente que nem mesmo o passar dos anos tira tem sido uma grande aventura.

Aqui já me deram emprego por pena mesmo com dez anos de atuação como pedagoga social e mais de vinte anos de militância em movimentos sociais. Aqui sofri assédio moral, ameaças e tive que assinar uma advertência trabalhista porque enfrentei o machismo de um advogado que tentou me subjugar. Mas aqui também encontrei o caminho de uma espiritualidade independente, de amizades tão profundas que sonham e me levam junto em seus sonhos.

Aqui tenho afetos que acalentam minha alma quando a saudade da terra amada é gritante. Aqui me descobri amante de pessoas independente de sua orientação afetiva e sexual. Aqui me descobri bi. Biafetiva, bissexual, bioafetiva*. Descobri a liberdade de ser quem eu sou deixando cair máscaras que já não faziam sentido usar.

Aqui todos os dias eu teço meu lar e nas alegrias e dores de ser eu, teço meus sonhos e sentidos. A quem caminha comigo nesta história de ser Jesuana a minha imensa ternura e gratidão. Não há outro caminho senão assumir com toda inteireza quem eu sou mesmo que amanhã eu já seja outra.

(*bioafetiva: minha marca de cosméticos naturais criada em 2017 )

Ouça Nossa Voz: Ser Eu. (Música de Fundo Far Far de Yael Naim).

13 comentários em “Ser Eu

    1. Minha querida Arlete, você está neste texto de diversas formas mas ressalto que você é uma dessas pessoas incríveis que Sampa me presenteou e ainda me contempla em seu sonho de juntar Mulheres para escrever. ❤️ Muito amor por ti e imensa gratidão

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  1. Nem sei dizer como estou mexida. Ontem mesmo desaguei ouvindo alguém narrar sua trajetória de vir, sofrer, lutar e agora, com toda essa “coisa” atual, voltar à sua terra. Eu acredito que há significados que estão além de mim e o retorno dessa pessoa tem suas razões, até para fortalecer seu povo, mas mexeu demais comigo. Pensei tantas coisas, tantas injustiças – ser mulher, não branca – como isso tudo e ainda mais aumenta o tamanho da luta. E hoje, lendo seu texto, vi aquela outra mulher. Você representa tantas e sua luta ainda que contínua já é digna de ser chamada de vitoriosa. Eu, paulistana, só agradeço humildemente por ter vocês por perto.

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  2. Jesu, muito lindo esse seu escancarar a si mesma. Corajosa e afetuosa, vai “colhendo pedras e plantando flores pelos caminhos”, como tantas que somos coralinando pela vida. É gratificante ter cruzado seu caminho, nele quero me entrelaçar e não mais me distanciar.

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