Além das janelas

Ana Karina Manson-

Os alarmes desativados. O celular não despertaria – nem amanhã, nem nunca mais.

A vida mudara e, como numa ficção cinematográfica, ninguém podia sair de casa.

Ninguém sabia ao certo o que acontecia, mas aquele que saía, não voltava.

Não aconteceu de um dia para o outro.

Primeiros as pessoas receberam avisos pelo mundo para que ficassem em casa. Em alguns lugares, sobretudo onde as pessoas já se distanciam normalmente, muitos obedeceram.

No entanto, onde as pessoas gostam de rua, de céu, de pipa voando, de baile e bar nas calçadas, nesses lugares poucos ficaram em suas casas.

Houve também lugares em que nem todos tinham casa para ficar; o teto era o céu, a ponte, a marquise. Ali ficaram por algum tempo.

Em alguns pedaços esquecidos pelo mundo as orientações não eram claras: uns diziam para ficar em casa e depois se contradiziam; outros falavam desimportâncias, mas eram ouvidos por tantos desimportantes que seus dizeres confundiam e desorientavam.

Nesses lugares foram registrados os primeiros desaparecimentos: um homem de rua, uma velha, uma criança.

No início, todos consideravam normal, afinal eram pessoas sem juízo, sem condição do ir e vir consciente.

Depois começaram a sumir outros: jovens que burlavam as regras para encontros amorosos e também aqueles que diziam ir ao mercado para reencontrar a amante tão antiga; mães que saíam comprar leite e algum agrado para que os filhos ficassem em silêncio ao comerem satisfeitos uma coisa qualquer; homens que passavam seus dias entregando comida, roupa, sapatos, vibradores, laços de cabelo, livros, fita crepe, cabo de notebook, luminárias e materiais de escritório nas casas das pessoas.

Quanto mais os dias passavam as notícias dos desaparecimentos corriam mais rápido e não havia uma pessoa que não tivesse uma história de amigo ou familiar que sumira.

Assim, as pessoas começaram a temer as ruas e foram se fechando em suas casas. Depois com a intensidade do medo, fechavam as portas e janelas.

Lembravam com distância da dureza do asfalto e da beleza do céu. Os mais velhos contavam aos mais novos a sensação de caminhar pela areia e de sentir a água do mar deslizando no corpo.

Narravam com detalhes o cheiro do mato e o frescor de caminhar numa trilha no meio da mata.

Os mais novos quando iam crescendo se cansavam das histórias que mais pareciam invenções de velhos.

Apenas os pequeninos paravam para ouvir atentos às narrativas e, em sua imaginação infantil, tentavam desvendar sensações que nunca tiveram; tentavam imaginar os azuis diversos de céu e mar.

Apenas os pequeninos paravam para ouvir as histórias desse mundo além das janelas.

Ouça nossa voz: Além das janelas

5 comentários em “Além das janelas

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: