Antes de tudo, a escrita!

Juliana da Paz

Tudo que tenho a falar é imenso. Tudo que tenho aqui, sentindo, é lindo e louco, mas é onde me organizo. Sou a materialização nas palavras. Escrevo há muito tempo, desde a época em que morava em uma casa com quintal de terra e registrava tudo na areia. Tempo bom em que não me apegava aos registros. Parece até que escrevia para me esquecer de mim, ou de tudo que externava naquele momento. Isso ainda não mudou, de certa forma. Pois ainda escrevo para aliviar, para lembrar de como amo as coisas, as pessoas, o dinheiro, os prazeres da vida, de como preciso tirar de mim certas dores e indignidades, indignações também. E depois deixo meus textos em qualquer lugar. Sou negligente com eles. Coisa que faço para encontra-los num outro dia qualquer e lembrar de quem fui, me olhar com carinho e me perder de novo em outra superfície de papel, cera ou tela. Eu escrevo para tudo, tudo mesmo. Uma vez disseram “A literatura emana de você”. Achei a coisa mais linda da vida. Tudo que eu vejo, penso logo em como poderia descrever, escrever, em que texto em andamento aquela fala da pessoa do trem poderia entrar? Eu faço poemas mentais no metrô, mas não lembro depois, eu queria ter coragem de me tornar slamer. Aprender a tocar pandeiro e entrar num combate feito uma “repenter”. Tenho quase certeza que descendo de um, acho a cadência dessa ascendência a coisa mais indecente pruma descendente, porque não nos larga e eu já desisti de tentar fingir. Meto rimas em textos prosaicos mesmo. Tenho feito sem a menor vergonha.

Mas o primeiro texto que ficou, qual foi?

Eu planejava me livrar de uma paixonite escolar – aos 12 anos me apaixonei pela primeira vez – e veja que loucura, não tinha coragem de me declarar, não conseguia esquecer, mas achava que se me expusesse em um poema, poderia me proteger e declarar meu amor ao mesmo tempo. O fiz e escondi numa brochura que minha mãe havia costurado para mim. Sim, minha mãe costurou algumas folhas de papel para me fazer uma brochura, pois assim como tudo eu resolvia escrevendo, tudo ela resolvia costurando.

Numa noite de lua cheia, alguns amigos do grupo submundo de teatro, do qual eu fazia parte, aos doze anos, resolveram fazer um sarau, na quadra do bairro, à noite. Eu tinha certeza que estava indo apenas para ouvir as amigas e amigos, porém, lá pelo meio do sarau, minha irmã resolveu ler um poema e o anunciou assim: Esse poema não é meu, mas de minha irmã, eu encontrei em nosso quarto e achei que valia ler.

Desta maneira fui descoberta e exposta, morrendo de medo. O pessoal generoso que era elogiou a declaração de amor, que depois de lida, não foi entregue, mas publicada sob o pseudônimo de Luciana Viana no jornal da escola, e finalmente largado desleixadamente em qualquer lugar, para ser achado, novamente nessa narrativa sobre mim, a escrita e nosso legado!

Ouça Nossa Voz: Antes de tudo, a escrita!

9 comentários em “Antes de tudo, a escrita!

  1. Tantas vezes os poemas já serviram de sublimação para esquecer amores não correspondidos. É um alívio deitar em versos as dores, amores e ao fim viram mesmo nosso legado. Salve sua escrita potente, Ju.

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  2. Eu acho mesmo um privilégio esse de acalanto na escrita; essa entrega, esse colo. Às vezes queria tanto que todo mundo descobrisse desde a infância essa magia que é a escrita, essas descobertas e esse descobri-se que você trouxe tão lindamente em suas palavras.

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  3. Que lindo caminhar Ju, me vejo um pouco em ti, e como não ser assim, se mesmo não nos conhecendo pessoalmente temos tanto em comum. Ver as proprias dores e medos impressas no papel independente de nossas folhas mentais, esse frio na barriga de deixá-los voar… Inexplicável a escrevescência da palavra!

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