Quando amanheci e vi Raoni da janela

(foto: Carl de Souza/AFP)

Mara Esteves –

Em 2017, junto com a turma que constrói cotidianamente a Rede Nacional de Bibliotecas Comunitárias, fui agraciada com a oportunidade de participar de uma formação em orçamento público e direitos humanos, oferecida pelo INESC (Instituto de Estudos Socieconômicos), em Brasília. Tinha consciência que a cidade projetada receberia representantes de diversos povos indígenas de cada canto do país para a Mobilização Nacional Indígena, que aconteceria em poucos dias e iria coincidir com os dias do nosso encontro formativo.

Cheguei em Brasília à noite e segui para uma hospedagem da igreja católica que além de nos acolher, cedeu o espaço para a nossa formação. A noite estava escura e não consegui ver detalhadamente os espaços do alojamento, a não ser o caminho iluminado pelo guarda que nos levou até o quarto. Por se tratar de um alojamento católico, reservado para o uso dos movimentos sociais que vira e mexe precisam de acolhida nas lutas travadas no planalto central, os horários de resguardo e das refeições, são religiosamente respeitados.

Tenho em mim uma curiosidade absurda em explorar espaços, conhecer aquilo que não está nítido, descobrir e se reconhecer em novas pessoas, e por isso, meu sono foi entrecortado pela ânsia em saber aonde estava e o que o próximo dia iria me oferecer. Minha gana incessante em viver o amanhã não me deixou adormecer tranquilamente.

Assim que os primeiros raios de sol surgiram no horizonte, ainda sonolenta, me coloquei de pé e antes mesmo de lavar o rosto, me direcionei para a janela, aquela grande tela que permite que a luz adentre a escuridão, promovendo o grande baile de partículas minúsculas no ar. Sem qualquer expectativa, somente levada pelo calor e pela beleza de um amanhecer ensolarado, suspendi a respiração e não conseguia acreditar no que a fotografia das minhas retinas capturaram naquele momento. A imensidão que existia lá fora, era um espaçoso jardim florido com árvores frondosas, um gramado vistoso com bancos espalhados e uma horta bem cuidada ao fundo. Além das freiras que circulavam por aquele verdejante espaço, observei outros seres se nutrindo da energia abundante daquela terra. Entre pássaros e borboletas, Guaranis, Pataxós, Caiapós, Ianomâmis, Ticunas e Jurunas coloriam à luz do sol. Eram representantes destas e de outras etnias que não reconheci num primeiro olhar, mas que foram se descortinando ao meu conhecimento à cada dia que sagrei a comunhão de estar entre eles, em comunhão de um povo só. A diversidade e unicidade de ser povo Brasileiro.

Sentado em um banco de madeira, embaixo da árvore mais frondosa do jardim, reconheci a luz de um deles, referência/reverência da luta indígena no Brasil, conhecido não só por mim, mas por muitos que estão no front da defesa dos direitos humanos neste país e no mundo. Uma das maiores lideranças indígenas universais. Embora o conhecesse muito bem, era óbvio que ele não sabia da minha pequena existência. Fiquei sem ar, me sentindo pequena e grandiosa, simultaneamente. Era ele, o Cacique Raoni. Sua grandeza e simplicidade entre nós.

Acordei meu colega de quarto, e juntos, ficamos extasiados com o imenso privilégio de estar entre os maiores lutadores e defensores destas terras tupiniquins. Ficamos ali, em comunhão, sentimento misto de desejo e cautela, receio que nossa forma colonizadora de estar neste mundo invadisse aquele momento sagrado, aquele suspiro de paz. Sabíamos, mesmo em silêncio, que precisávamos respeitar os rituais de luta e cura de cada povo representado ali, embora dentro de nós ardia o desejo de conviver, de se entregar a experiência de co-habitar aquele espaço e nos nutrirmos da fonte de tanto conhecimento ancestral.

Se os raios de sol iluminavam todos os cantos e as belezas daquele espaço tão bem cuidado, ao tocar a pele do cacique Raoni, reluzia com mais força e esplendor, me deixando paralisada com tanto mistério. Me contentei com a dádiva de observa-lo em silêncio e me senti grata por isso. Este momento, interrompido pelas obrigações ditadas por um Deus impiedoso. Chronos, me chamando para cumprir a agenda do dia, delimitado na exatidão das horas. Me banhei e fui me reunir com o pessoal das bibliotecas para o café da manhã, ritual para abrir o novo dia.

No frenesi dos conhecimentos que seriam partilhados e já previstos na programação, co-habitava em mim, um desejo de ouvir Raoni, de fugir do cronograma, embora estava consciente da importância destes conhecimentos para o nosso cotidiano de luta pelo direito humano à leitura. Algo em mim intuía que precisávamos de alguma forma, beber daquela fonte abundante e sentia, mesmo de forma sutil, que nenhum de nós voltaríamos os mesmos, que um cadinho da imensidão de saberes que eles carregam há séculos, nos daria maior sentido para aterrar qualquer conhecimento técnico.

Fora os momentos de partilha do espaço aonde fazíamos as nossas refeições, ficávamos grande parte do tempo, separados. Nós, na sala e eles à caminho do Acampamento Terra Livre. Cada grupo, cumprindo seu chamado naqueles instantes. Em roda, sentados no chão, fazia morada nossa hereditariedade. Partilhamos entre nós, o conhecimento dos nossos fazeres em cada território. Conhecimento múltiplo e singular do fazer e das lutas populares. O direito humano à leitura, transversal aos direitos mais essenciais para sagrar a vida: o direito à terra, à dignidade de ter o pão, a poesia e o teto como garantia de existência e o respeito a nossa identidade calcada em seres diversos e únicos.

Embora existisse um compromisso com a agenda pré-organizada por nós, ansiávamos por nos juntar a luta indígena. Sabíamos instintivamente, que nada faria sentido se não fosse estarmos todos juntos em comunhão. Afinal, nos primeiros dias de mobilização, as lideranças já tinham sido atacadas pela força brutal e desumana da tropa de choque do Planalto Central.

Seguimos ao Acampamento Terra Livre, junto com faixas de apoio e novamente, respirando pausadamente e pactuando formas de estar junto sem invadir, para sabermos quais os limites de chegança e de apoio que não ofuscasse a luta que apoiamos, mas que não somos protagonistas. Após a autorização das lideranças do acampamento, nos vestimos de coragem e nos juntamos à eles. Eramos múltiplos e de ancestralidades diversas: brancos, negros e indígenas. Rompendo as amarras da covardia do passado que se faz e jaz presente, para de forma singela, trazer nosso apoio a reparação de tanta dor, crueldade, injustiça e sofrimento.

Poucas horas ficamos por lá, instantes que reverberaram em nosso ser e estar no mundo e ecoa até hoje em nosso fazer cotidiano, em nossos espaços e territórios.

No último dia, tive a coragem de me sentar perto do cacique Raoni, o privilégio de dividir o mesmo ar, o mesmo espaço e escutar atentamente suas poucas e precisas palavras. Não me recordo a forma de dizer, mas reverberou assim: ” Precisamos de todos, com coragem e firmeza, um cuidando do outro. ”

Hoje ecoou e revivo em mim estes momentos. Talvez, tragada pela dor de saber que Cacique Raoni está internado no Mato Grosso com um quadro de saúde delicado, agravado por uma depressão que paira no ar. Talvez por saber que os tempos são tão duros quantos os idos de 2017, pós-golpe institucional, que derrubou a nossa primeira Presidenta do Brasil. Tão duros quanto os 520 anos de colonização destas terras.

É a pandemia institucional e política, seguindo o seu plano perverso de dizimar os povos indígenas no Brasil, mas por teimosia e por Raoni, resistiremos.

Ouça nossa Voz: Quando amanheci e vi Raoni da janela.

5 comentários em “Quando amanheci e vi Raoni da janela

  1. Que momento especial você narra para nós e ao mesmo tempo que triste é vermos a perversidade de um desgoverno tragando pessoas tão importante e necessárias!

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  2. Lindo relato! Esse encontro é extremamente necessário para todxs nós, brasileirxs! Essa “depressão” parece comum em nossos tempos, sigamos o sábio conselho de Raoni e cuidemos mais uns dos outros!

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  3. Que misto de sensações! Ha beleza do encontro, ao declinio de ainda nao conseguirmos mudar tais realidades.
    Sinto que tambem somos muitos internados dentro da pseuda estabilidade, nos dias atuais.

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