Brasilina

Thata Alves –

“Brasilina Minina ! Vai por uma batom vermelho nessa boca seca!” Minha avó me acordava assim, não podia me ver de cabelo fora do lugar, roupa por vestir, que já me estimulava a la moda de dona Brasilina. A moda de minha avó era floral, tudo que era fulô do jardim ela estampava em seus trajes, tinha em seus vestido, flor de espatódea, flor de boa noite, flor de muçambê, e a majestosa flor de mandacaru.

Gostava do modo dela de se estampar. Conversava com a flor do jardim,  a colhia, e após licença, entre o tecido, a flor e a palma de sua mão prensava com um tapa, pronto! Mais um look de vovó com as flores do jardim.

Caçoavam, minhas tias, sobre a moda desenhada por vovó. Mas ela nunca foi de se importar com opinião dos outros, quando sabia de algum comentário alheio sobre sua pessoa dizia: “Num dou nem osadia, pra num dá bom dia.” Usava. Pois se algodão também é colheita e do algodão vem a roupa, como que a flor não se sentiria abrigada por ali estar, a estampá-la?

Eu vivia a desembestar pelos cantos, chorava mesmo por macho. Eles não faziam parte do jardim da vovó, mas tinha um talento para enraizar nos meus pensamentos, e quando saiam , deixava-me com arranhões no coração, como se fossem umas das flores de vovó , daquelas mais espinhentas. Só ela me consolava, era choro tanto que ela me usava pra regar as plantinhas, dizia: ” Minina, venha cá! Nesse canto aqui chore, o sol já baixou e suas lágrimas não vão cozinhar as raízes dessas … Quando vazar tudo! me grite menina. Eu tive dó de obedecer, porque se eu assim fizesse… Ia molhar o jardim de tristeza. Então dei um jeito logo de engolir as lágrimas e com um berro gritei: “Voooooooooó!”

Ela sabia da urgência do grito, mas vinhas em passos calmos. Chinela havaiana azul, da época que essas ainda não eram retrô, e o grampo de seu cabelo fazia a emenda da correia. Sentou-se do meu lado e orientou-me: “Menina pra qualquer maus da vida é levantar , sacudir lençol , banho e roupa bonita, mas tudo isso não adianta se não punha batom vermelho, é o vermelho que reluz coragem. Já viu moça sem coragem usando essa cor? Não, não , estas ficam com tons pasteis, tons perolados, mas vermelho … Vermelho é para nós!”

E essa cena é tão viva em minha memória, percebe-se com a riqueza dos detalhes que traço aqui… Eu adulta, acho. Visito essas memórias todas vez que lembro dela. Minha vó estava longe dessas vovós de desenhos, carinhosas e frágeis. Ela tinha batom carmim nos lábios, e tê-los assim , parecia dar uma outra entonação nas palavras, parecia dar mais quentura. Uma vez estava ela, preparando um peixe que ganhara de seu amante, é minha avó era dessas , de ter amante e eu achava a coisa mais aventureira, nas terras pacatas que vivia em Cajuí. Ter as estórias de aventura de vovó e seu amante.

Quando esse peixe chegava também era sinal de bom presságio, a gente, os netos, todos sabíamos que aquele dia seria barril, vovó ficava encantada nesse dia, quase como a dona Florinda nos dias que Professor Girafales a visitava. Acho a comparação mais fidedigna de como Brasilina ficava, a gente brincava até mais tarde, tudo que pedíamos ela fazia, as sobremesas todas, e certa vez até sem banhar eu pude dormir. Pois bem, ela preparava esse peixe, com ervas que ela pegava no quintal , com os alhos que ela pedia pra eu descascar , e tudo isso na tarimba, legal de tudo isso era limpar a tarimba , pois com as bacias de alumínio que reluziam, eu banhava ao mesmo tempo que fingia estar lavando , e a lambança se deva, já que o chão era de terra …

O peixe do amante sempre era grande, mode ele queria surpreender, e assim sendo suas escamas também eram. Eu pegava a gosminha que as babosas fornecem e colava as escamas nas minhas unhas roídas, das ansiedades que eu armazenava quando amantes platônicos diziam que viriam me ver, tomar um café… Escamas essas que viravam então minhas unhas postiças. Vó Brasilina ria , das minhas bobiçes, mas logo gritava para eu parar porque faltava terminar o resto do almoço. E eu tinha que ir lá colher as hortaliças para as saladas.

Pontualmente ao meio dia o almoço estava pronto, nunca se atrasa as refeições aqui, a gente acorda cedo, com o som dos passarinhos. E apesar de não gostar de acordar cedo, com eles, é menos agressivo do que o despertador, da vontade de levantar e usar o lençol como asas e sair no bando com eles.

A mesa tava linda pro almoço de domingo, a toalha de chita preenchia a mesa, tinha um vaso no centro com flores artificiais, que vovó limpava para não empoeirar todos os dias, os pratos castanhos postos, e os talheres todos com cabos de madeira. Água gelada servida na moringa maior, e pra quem quem quisesse suco natural, fresco e bem gelado, de seriguela. Tinha pirão de peixe, peixe assado, um arroz branquinho, da mesma cor que os fios de cabelo de Brasilina, salada com as hortaliças que eu colhi, feijão marrom , da mesma cor que eu , e enquanto vovó tirava o avental, nós sentávamos , éramos muitos …

Vovó no desatar o nó para tirar o avental se deu conta , que o batom dela tinha acabado. Inté parece que num almoço de domingo , ela ficaria desaprumada. Caçou nas gavetas, outros do mesmo, porque ela tendo um catálogo todo pra escolher, era sempre a mesma cor carmim que ela

 usava. Nada na procura, todos já no toco, que ela raspava com cotonete, pra usar o tom do batom até sua última gota. Danou-se! Levaria mais tarde no tupperwere, daqueles que ela tinha mais ciúmes,  um pedaço do peixe ao amante pescador. E como faria isso, sem estar de carmim nos lábios? Rezou pros santos todos, até pra São Longuinho, prometendo vários saltos, mesmo com joelho danificado, se encontrasse o objeto de maquiagem favorito. Eu, ainda não tinha sentado a mesa, quando entrei do quintal pra casa, percebi murmurinhos dos parentes meus.

Cacei vovó e ela estava em seu quarto, ar de aflição, meio murcha, e eu nunca a vira assim. Perguntei o que a afligia, e nesse momento pensei: “- Nossa! dessa vez sou eu que venho em passos calmos falar com vovó”, o diferente é que ela vinha de pés calçados e eu o antônimo. Contou-me então de tudo, éramos confidentes . Mas o que me deixava impotente era que , quando eu desabafava para ela, ela logo tinha uma solução. E eu ali não via muitas alternativas.

Pedi a ela uns minutos , e fui ao quintal. Se tudo ali era fruto que compunha nosso cotidiano, havia de ter algo para eu ajudar vó minha. Passei pela cozinha e peixe perfumava a casa toda, tirei o pano de prato de cima e vi a cor do molho do peixe, vermelha! E estar corado assim era devido ao colorau. Pimba! No quintal tinha urucum ! Eu trepei na árvore, peguei logo um monte, e fiquei pensando como fazer uma massinha com ele , com aspecto de batom…

Pilei ele no pilão que ficava na janela da pia, mas pensando com o que misturar. Poxa, parecia tão fácil , cozinhar, ter soluções culinárias , com minha vó maestrando o cômodo, porque eu não achava solução. Meio gelatina na cabeça, era isso ! Eu faria com isso, pegue gelatina incolor fiz a mistura toda com o urucum, abri um gloss que já estava no finalzinho, abri com os dentes, e coloquei a substância ali. Tava com cor, parecia ser bom. Atravessei casa toda, com meus pés pequenos passei pelo alpendre, destinada a chegar no quarto de Vovó. Ela estava na sua cama, sentada , amuada de frente ao seu altarzinho. Escandalosa eu gritei:” Minha vó, vai se perfumar com água de cheiro, porque eu fiz o batom pra senhora”. O olhar dela foi lento e franziu as sobrancelhas logo disse: “Deixa de bestagem, minina, onde é que já se viu você com esse tamanho todo ser cosmética agora.

Logo retruquei: ” Minha vó confia em mim, eu fiquei vida toda te observando na cozinha, algum causo eu tinha que aprende, num é? Vá, vá, vá! Vou passando sua roupa enquanto se banha e já mandei o povo comê, tão lá na cozinha, tudo se lambuzando. Vosmecê vai sim encontrar seu amado.”

Brasilina foi, mais foi sendo empurrada pelas mãos pequenas minhas. Ao acabar o banho tava tudo pronto, roupa passada na cama, com o ferro de carvão. Sapatos brilhantes com a graxa que tinha passado. Deixei na penteadeira o batom feito por mim, sentei ela na cadeira e penteie os cabelos de vovó, a ansiedade me consumia de ela passar logo o batom na boca.E quando ela arrumou o cabelo como quis, foi testar o batom toda desconfiada. e quando moveu os lábios inferiores com os superiores para espalhar o batom de urucum. Porra!!!!! O sorriso dela tava brilhante que nem as panelas que ela arriava! Eu fiquei toda toda. Ela se saiu pela porta de trás e foi ao encontro do amado.Quando os familiares notaram sua ausência eu respondia, foi na vendinha , buscar colorau.

8 comentários em “Brasilina

  1. Êa! A força, a beleza e a maestria das avós. Essa ancestralidade que está em nossos saberes mais intuitivos. Que delícia ler este conto, Thata! Xêro.

    Curtir

  2. A energia de dona Brasilina chegou aqui! Fui palpitando o coração de ansiedade por esse batom vermelho, pelo encontro com amante… Que delícia de texto !!!!

    Curtir

Deixe uma resposta para anakarinamanson Cancelar resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: